Trip Global: Hong Kong e Macau

Nós chegamos a Hong Kong depois de 12 horas de voo a partir de Auckland. Portanto, já estávamos viajando há mais de 14 horas pois havíamos partido de Wellington, que fica a uma hora de voo de Auckland. Tudo isso dentro do mesmo dia, pois a diferença no fuso horário de Auckland a Hong Kong é de 4 horas. Quando o avião baixou para pousar em Hong Kong, avistamos vários navios que estavam fora da baía. O aeroporto de Hong Kong é enorme e tem um trem expresso que serve a cidade, mas cujo preço não compensa no caso de 3 pessoas. Neste caso, o taxi sai mais barato. Como já eram mais de 9 horas da noite e o taxi passa a maior parte do trajeto em vias expressas, não houve problema de tráfego e depois de 40 minutos estávamos à porta do hotel, que ficava em Kowloon, em frente a ilha de Hong Kong, onde está situado o centro financeiro, que tem a maioria dos grandes arranha-céus que fazem a vista da baía de Hong Kong a grande atração turística da cidade.

Templo dos 10 mil budas

Templo dos 10 mil budas

Hong Kong é uma cidade sui generis, hiper povoada. São três níveis de cidade, todas igualmente complexas. Há uma cidade subterrânea, que fica entre as estações de metro. Ali pode-se encontrar shoppings inteiros, com lojas de todos os tipos, praça de alimentação, tudo subterrâneo. É engraçado, pois muitas vezes passamos horas entre trens e estações subterrâneas, como se fossemos tatus. No dia em fomos a um templo budista chamada de Templo dos 10 mil budas, tivemos uma experiência desse tipo. Na volta, resolvemos ir à Times Square para jantarmos. Em primeiro lugar passamos uns 30 minutos num trem. Quando descemos, andamos pelo menos 10 minutos até chegarmos ao metrô, tudo debaixo da terra. Paramos numa estação da Tsuen Wan Line e tínhamos que ir para a Island Line. Aí gastamos 15 minutos andando pelo subsolo, por entre lojas e restaurantes. Daí pegamos o metrô para Times Square e descemos num lugar em que tivemos que andar pelo menos mais 5 minutos debaixo da terra para sair da estação. Ao todo ficamos aí pelo menos 1 hora, entre trens e estações.

Para além dessa cidade subterrânea, há uma cidade aérea, constituída por passarelas que ligam edifícios, principalmente na zona comercial e financeira da  Ilha de Hong Kong. É uma loucura, pois pode-se percorrer grandes distâncias em passarelas e interior de edifícios, sem nunca ter que pisar na rua. Essa parte da cidade, assim como a subterrânea, não está no google maps, que nos informa os caminhos pelas ruas mas não pelas passarelas aéreas e passagens subterrâneas, que em alguns lugares são o meio mais confiável de se andar pela cidade. No dia em que fomos ao Champanhe Bar, ouvir a um jazz, tivemos essa experiência. Saímos da estação dentro de um prédio e descobrimos que a única forma de alcançar o local do bar era cruzando a Connaught Road e depois usando uma dessas passarelas, que era visível e enorme.

Protestos

Protestos

O mais engraçado foi que, ao finalmente encontrarmos a Connaught Road, que é uma das principais avenidas na ilha de Hong Kong, nos deparamos com centenas de barracas, que pertenciam ao movimento que protesta contra mudanças na política de Hong Kong. Essas mudanças são consequência do fato de Hong Kong ter deixado sua condição de colônia da Grã-Bretanha e ter-se tornado região autônoma pertencente à China. Mais ou menos um mês antes de chegarmos, Hong Kong estava na mídia, em função desses protestos. Havia repórteres de todas as grandes agências dando cobertura ao vivo desde Hong Kong em todas as TVs da Austrália e da Nova Zelândia, e também na BBC, CNN, etc. Tínhamos notícias dos protestos de Hong Kong em todos os jornais. Quando os grupos decidiram acampar numa grande avenida no centro, o fato também foi amplamente noticiado. Mas depois de umas duas semanas, tudo sumiu da mídia como se os protestos tivessem terminado. Mas não acabou, estava lá, nós presenciamos. Para a mídia, no entanto, já não causava tanto impacto e esta decidira mudar de assunto, antes de o assunto se encerrar. É engraçado com age a grande mídia em relação a todos os protestos que duram muito tempo. Foi assim em relação ao “Ocupem Wall Street” ou em relação às greves de professores universitários que duraram mais de um mês. Há uma lógica da novidade que perpassa a grande mídia. Por isso, qualquer protesto mais demorado, mesmo que tenha conseguido por algum tempo ter atraído a cobertura, até ao vivo, ao fim de uma ou duas semanas vai sumir do noticiário.

Voltando ao nosso trajeto por passarelas e prédios, depois de atravessarmos a Connaught Road, subimos a uma dessas passarelas e nos pusemos a caminhar. A passarela acabou num edifício ultra contemporâneo, entramos, descemos um andar e entramos em outra passarela. E fomos, de passarela em passarela, passando por modernos edifícios, até que descemos em frente aos jardins do prédio do hotel onde ficava o Champanhe Bar. Um hotel 5 estrelas, com muito luxo, e uma bar de happy hour, com executivos conversando animadamente, um excelente duo de jazz, com pianista e saxofonista, mas num ambiente muito barulhento por causa de tantas pessoas muito interessadas na conversa e pouco no jazz.

Névoa seca sobre a cidade

Névoa seca sobre a cidade

Finalmente, em meio a essas duas cidades, uma abaixo e outra acima, há uma cidade “normal”. Essa cidade vez por outra desaparece frente a cidade aérea, e ficam apenas os carros. Outras vezes, ela surge com força, com quarteirões inteiros dedicados a um tipo de comércio, como as ruas dos produtos eletrônicos, que fica em Mong Kok. Não é muito fácil se deslocar a pé em Hong Kong por qualquer uma dessas vias, pois todas estão cheias de gente. De onde sai tanta gente? Há enormes conjuntos de edifícios, cada um com mais de 30 andares, que povoam toda a periferia de Hong Kong. Mais perto da região central, há muitos apartamentos, quase nenhuma casa. Mesmos os parques de Hong Kong ficam escondidos por prédios comerciais. Não há árvores plantadas nas ruas, de modo que na região central há muito pouco verde.

The Peak

The Peak

Há também uma névoa seca que está o tempo todo sobre a cidade. É impressionante, pois essa névoa impede mesmo que se veja claramente os edifícios do outro lado da baía, ou do alto do The Peak, onde fomos atraídos pela vista da cidade. De certa forma, esse conjunto de fatores – a névoa seca constante, a quantidade de gente por todo o lado e a falta absoluta de verde – tornam Hong Kong um pouco opressiva. Parece que as pessoas não têm o que fazer nas horas de folga a não ser comprar. Todos as lojas e shoppings estão o tempo todo cheias de gente. É uma loucura.

Ned Kelly's Last Stand

Ned Kelly’s Last Stand

Numa cidade como esta, uma das principais diversões são os bares, que também nunca estão à vista, são sempre uma atração que deve-se buscar, descendo escadas para se meter no subsolo. Foi assim que encontramos o bar Ned Kelly’s Last Stand, que mantém como atração uma superbanda de jazz, formada em sua maioria por orientais, comandados por Colin Aitchison, um inglês de Newcastle, que toca trombone de vara. É muito divertido o show dessa banda, eles têm um repertório enorme. Um grande maço de partituras fica em frente a cada músico e ali eles buscam o que vão tocar a seguir. Fizemos um pedido, para que tocassem Tom Jobim, e fomos atendidos de imediato. Tocarem Wave. Colin é muito comunicativo e diverte bastante o público. O bar estava lotado. Há mesas para 8 pessoas, que normalmente são ocupadas por mais de uma turma. Quando chegamos, Regina, Joan e eu, fomos alocados numa mesa em que havia três pessoas de Hong Kong e duas pessoas da Noruega. A cerveja é deliciosa. Foi uma noite muito divertida.

Todas as noites, depois das 20  horas, há dez minutos de espetáculo luminoso, quando os edifícios se colorem, formam diferentes padrões de cor e luz, num bonito espetáculo que atrai muitos turistas para a beira do mar da baía.

Português por todos os lados

Português por todos os lados

No domingo, na véspera de partirmos para Tóquio, fomos a Macau, que fica a uma hora de barco veloz. É estranho porque, apesar de estarem na China, tanto Macau como Hong Kong são províncias autônomas e por isso têm status de países independentes. De forma que precisamos de passaporte para entrarmos. Passamos pela imigração em Hong Kong, para sairmos, e novamente em Macau, para entrarmos. Quando chegamos em Macau nos dirigimos ao centro velho, onde os edifícios lembram as nossas cidades históricas. É curioso que o português está por todo o lado – no nome das ruas, nos estabelecimentos de comércio, nos menus dos restaurantes. O nome desta rua nos deu curiosidade de saber a sua origem. É de chunambo que deriva a palavra Chunambeiro, empregada em Macau para designar o antigo local, próximo da fortaleza de Bom Parto, no extremo sul da baía da Praia Grande. Nesse local havia antigamente fornos de cal de ostras, que é justamente o significado de chunambo. Mas não encontramos ninguém que falasse português. Cantonês todos falam, inglês uma boa parte, mas português, é muito raro, talvez haja pessoas mais velhas que falem.

Cassinos

Cassinos

Macau se tornou independente de Portugal em 1997. Era uma das colônias mais antigas, datada de 1557. Foi de Macau que os portugueses trouxeram o arroz que constitui-se num dos principais alimentos dos brasileiros. Era um lugar de muitos cassinos e continua a ser a única localidade na China onde o jogo é permitido. Os cassinos estão em edifícios enormes, situados ao longo de toda Macau.

Fachada de São Paulo

Fachada de São Paulo

No centro ficam edifícios históricos. Um deles, a fachada da São Paulo, fazia parte de um igreja construída em 1602, que foi destruída num incêndio e da qual só restou a fachada. Perto da fachada de São Paulo há um forte, do qual se avista toda Macau. As casas empilhadas lembram um pouco as nossas favelas. As ruas e todas as lojas estavam lotadas de chineses, todos muito animados e comprando muito. Quando chegou a hora de partirmos, resolvemos tomar um ônibus para o porto. Havia uma grande confusão de gente a procura de ônibus, num terminal da cidade. Não sabíamos que haviam dois portos dos quais sai o barco para Hong Kong e, em meio a confusão do terminal, tomamos  o ônibus para o porto errado. Mas no final deu tudo certo e chegamos finalmente a Hong Kong, um pouco exaustos da viagem, mas prontos para partir para Tóquio no dia seguinte.

Semelhança com favelas

Semelhança com favelas

Trip Global: Wellington, Nova Zelândia

Baia de Wellington

Baia de Wellington

Wellington é a capital da Nova Zelândia. Uma cidade relativamente pequena, de 400 mil habitantes, mas que ferve nos seus bares, pubs  e nightclubs.  A cidade, a exemplo de Auckland, também fica numa baia, de águas muito azuis e límpidas. Apesar de ser um porto, enxerga-se o fundo a grande distância, de modo que num dia de sol é possível ver várias pessoas nadando.

Remo na baia

Remo na baia

Tivemos dois dias seguidos de sol e céu totalmente azul, sem uma nuvem, o que é uma raridade segundo os moradores. É curioso porque nesses dias de muito sol e mar tranquilo, a baia fica repleta de gente nadando, remando e fazendo yoga sobre pranchas de surf, dentro d’água. No seu normal, Wellington é uma grande ventania, com pouco sol, muitas nuvens e chuva. Ela fica no final da ilha do norte e o vento sul é como que canalizado pelo estreito de Cook, que separa a ilhas do Norte e do Sul. A cidade respira mar, pois distribui-se ao longo do porto e aí convive diariamente, recebendo ferrys que fazem o transporte para a Ilha do Sul e navios que se abastecem dos derivados do leite, lã, madeira e de vinhos, entre outras coisas.

Morros verdes em torno do centro

Morros verdes em torno do centro

Ao longo desse porto, apenas uma parte, constituída por umas três ruas paralelas, é plana. Todo o restante é montanhoso e isso proporciona um bonito espetáculo, pois em torno do centro plano e cheio de edifícios se distribuem morros com muito verde e casas bonitas. Esse centro, que gira em torno do porto, é facilmente percorrido a pé em um pouco mais de meia hora, o que dá uma ideia da sua dimensão. Entre os morros destaca-se o Victoria, que fica no lado direito da baia, e pode ser alcançado também a pé, depois de algum esforço na subida. Na subida passe-se por uma área reflorestada, e tem-se, ao final, um bonita vista de toda a baia.

Vista da baia

Vista da baia

É do alto do morro Victoria que temos uma ideia mais clara de quanto verde há em toda a capital neozelandesa. Atrás do centro temos o Jardim Botânico, que alcança-se por meio de uma bondinho com cremalheira, como o que nos leva ao Corcovado, no Rio de Janeiro. Depois de apreciar a vista do alto descemos por todo o Jardim, uma imensa floresta preservada praticamente no centro de Wellington, com espécimes variadas e uma tranquilidade a toda prova. Nesse trajeto, temos a impressão de estar numa área rural, pois ficamos envolvidos pela mata e pelo canto do pássaros.

Samambaias gigantes

Samambaias gigantes

A Nova Zelândia era inicialmente povoada unicamente por pássaros e outras aves, com uma extrema variedade. Foram os europeus que trouxeram os mamíferos, que extinguiram vários pássaros por ação direta, comendo os ovos de seus ninhos, ou indireta, colaborando na destruição de florestas que os abrigavam. No Jardim Botânico os pesquisadores tentam preservar um das últimas florestas naturais que ainda sobrevivem na região de Wellington. As samambaias gigantes são naturais das florestas originais e são um símbolo da Nova Zelândia. Ao final do Jardim Botânico alcançamos a rua chamada The Terrace, que fica já a meio caminho da montanha, mas ainda cheia de edifícios.

Museu Te Papa

Museu Te Papa

Em Wellington tivemos oportunidade de ir ao museu Te Papa, que é um grande centro interativo que abriga o museu histórico, de ciências e de artes da Nova Zelândia. É lá que fica uma das maiores coleções de objetos e fatos relacionados aos habitantes originais da Nova Zelândia, os Maoris. Há inclusive exemplos de casas desse povo, casas de religião, ferramentas que eram usadas, vestiário, e grande acervo de vídeos e fotos. Segunda a narrativa Maori, a ilha do Norte é um peixe com a boca aberta, no momento em que é fisgado pelo pescador que está numa canoa, que é a ilha do Sul. A boca aberta é justamente a baia onde está situada Wellington. No último andar há uma exposição de arte que inclui artistas neozelandeses desde a sua fundação em 1840, até artistas contemporâneos tanto no estilo europeu como Maori. Nada muito estonteante, mas uma exposição que faz jus à história recente da Nova Zelândia e retrata vários líderes maoris.

Líder Maori

Líder Maori

Nas proximidades de Wellington fizemos uma visita guiada a vinícolas, todas situadas na região produtora de Martinborough. É curioso que deixamos Wellington de trem, numa manhã fria e chuvosa, em que ventava muito. Continuamos com o mal tempo por uma meia hora até que entramos num túnel no qual permanecemos por uns 10 minutos. Ao final do túnel, para a nossa surpresa, havia tempo bom, com sol e céu azul. Como disse no relato de Auckland, há vários climas completamente locais na Nova Zelândia, divididos por uma montanha, por exemplo.

Nova Zelândia Rural

Nova Zelândia Rural

Foi bom ter feito toda visita às vinícolas com tempo bom, pois curtimos as plantações de uva na bela paisagem rural da Nova Zelândia. Fomos a 4 vinícolas, onde fomos recebidos por pessoas diretamente envolvidas na produção dos vinhos, prontos a responder perguntas as mais diversas possíveis, enquanto nos serviam pequenas porções de vários dos vinhos lá produzidos. Começávamos pelo Pinot Griss, um vinho bastante frutado, passávamos ao Chadornay e ao Sauvignon blanc, brancos mais tradicionais,  e então para provávamos os tintos Pinot Noir e Shiraz. Pinot Noir é uma uva típica da Borgonha, na França, região das mais conhecidas pela produção de vinhos de qualidade, mas se adaptou muito bem a Nova Zelândia, que tem produção recente mas de muita qualidade. Nas regiões vinícolas os vinhedos se perdem na imensidão da planície, onde quase sempre são plantadas as uvas neozelandesas. A Nova Zelândia hoje exporta seu vinho para os quatro cantos do mundo. Na segunda vinícola que visitamos há produção artesanal de um vinho do tipo Porto, muito bom. O dono da vinícola foi quem nos recebeu e deu seu relato sobre o que é produzir vinho numa região que tem muita geada, o que congela a vinha e mata a produção. Para evitar que a vinha permaneça congelada os produtores usam diversos métodos: água borrifada no vinhedo, aquecedores a gás e até helicóptero. O prejuízo as vezes é tanto que vale mais a pena comprar uva de outra propriedade para não parar de produzir naquele ano.

Turma da vinícola

Turma da vinícola

Ganhamos a viagem às vinícolas de presente da nossa amiga inglesa Joan. Dela participaram ainda duas americanas que conhecemos na própria excursão: uma delas, Jamie, é uma jovem cheia de vida, recém casada e passeando pela Nova Zelândia. A outra, Gayle, é uma artista que veio conhecer técnicas de pintura dos povos Maori e dos habitantes de Tonga, uma série de ilhas no Pacífico sul. Tivemos um dia agradável em companhia também de Naomi, a nossa guia e motorista neozelandesa que trabalha para a companhia de turismo que vendeu a viagem. Ela nos pegou na estação de trem e nos levou para Martinborough, cidade que fica no centro da região produtora. Almoçamos num restaurante da cidade e no final do passeio tomamos chá acompanhado de diversos tipos de queijos. Tudo regado a vinho e a um bom papo. Ao final do dia regressamos para Wellington bem satisfeitos com os vinhos que provamos, que afinal não constitui muito mais que uma garrafa, tomada num intervalo de 5 horas.

Nesse mesmo dia tivemos o prazer de encontrar Alda Resende, cantora mineira que mora em Wellington há mais de 10 anos, com o filho do ex-marido neozelandês. Havíamos tentado o contato com Alda, sem obter sucesso. Quando fui à Embaixada Brasileira deixar um CD meu para o embaixador, que é um entusiasta da cultura, conversei com Marina, que trabalha na embaixada e é muita amiga de Alda. Deixei um CD também para Alda e marcamos de encontrar  no Matterhorn, que fica na Cuba Street, uma rua das mais movimentadas do centro de Wellington onde é possível encontrar de tudo, de uma boa comida, como a que saboreamos no Matterhorn, a roupas e assessórios para a vida ao ar livre. Conversamos longamente com Alda e Marina. Alda está satisfeita com a criação do filho no ambiente seguro e acolhedor de Wellington, que ela considera uma cidade cosmopolita e a melhor para se viver. Mas a Nova Zelândia é limitada para a sua carreira de cantora e ela já percorreu todos os circuitos de jazz existentes, inclusive o Festival de Auckland e o de Wellington. Canta regularmente em alguns bares, inclusive no próprio Matterhorn.

Marina é uma moça bonita, que é funcionária da embaixada. Discutimos um pouco da eleição para presidente no Brasil, que acompanhávamos de longe, principalmente pelo facebook e que aconteceria no domingo. Wellington seria uma das sessões eleitorais, a que votava primeiro, pois está 15 horas à frente de Brasília. Nesse dia estaríamos já na Ilha do Sul, cuja viagem começava em Wellington com o ferry, uma travessia de 3,5 horas que, dependendo do estado do oceano, não deixaria saudades. Veja o próximo post para conferir.

Wellington deixou em nós viva impressão de um porto limpo, numa cidade preocupada com o verde e com a sua preservação, com muita qualidade de vida, aliás característica de toda Nova Zelândia, e muitas opções de vida ao ar livre e ótimas opções de vida noturna.

Trip Global: Auckland e Rotorua, Nova Zelândia

A viagem a Nova Zelândia foi cercada de excitação, curiosidade e de uma leve saudade de casa, pois fazia já quase dois meses que estávamos viajando. Quando, do avião, avistamos a Ilha do Norte, bem em frente à baia em que fica Auckland, senti as emoções saltarem do coração, que batia apressado. Vi perfeitamente a transição entre o mar do oceano, agitado e com muitos rochedos, e o da baia, que apertado pelas montanhas se torna tranquilo e resplandecente. O avião contornou toda a imensa baia, passou depois por uma área industrial, deixou os edifícios de Auckland ao longe e foi pousar com o sol, no fim do horizonte.

Centro de Auckland

Centro de Auckland

No aeroporto já comprei o meu chip do celular por 29 dólares neozelandeses, que vale 0,8 do dólar americano.  A grande vantagem de trocar de chip a cada vez que se troca de país é que com o chip do país pode-se usar a internet, que vem junto com o pacote, com 1 GB. No caso neozelandês isso será muito útil, pois além de permitir localizar lugares na cidade e procurar por atrações e restaurantes, há um dispositivo no google maps que funciona como GPS e que permite que o usemos no carro que iremos alugar para viajar para Rotorua e durante os 12 dias em que estaremos na Ilha do Sul. Após comprar o chip telefonamos ao hotel, que já havia reservado um taxi para nós por 35 dólares, conforme havíamos solicitado antes por internet. Não há trens para os aeroportos na Nova Zelândia. A distância entre o hotel, situado no tranquilo bairro de Parnell, e o aeroporto é razoável e o taxi gastou uns 35 minutos, sem trânsito, para cobri-la. Chegamos já de noite ao hotel e encontramos Joan Scott, que foi a nossa grande companheira na Nova Zelândia, com quem já compartilhamos muitas viagens junto com o meu saudoso amigo Phil Scott.

Sky Tower

Sky Tower

Auckland é a porta de entrada principal da Nova Zelândia. Num pais de 4,5 milhões de habitantes, praticamente isolado do mundo, ter uma área metropolitana de 1,3 milhões a torna uma cidade de enorme importância, embora não seja a capital. No entanto, essa população está muito espalhada pelos diferentes rincões que constituem a região metropolitana, situada na enorme baia de dois portos, um do mar da Tasmânia e outro do Pacífico, e que inclui alguns bairros muito charmosos e belos, como por exemplo Devonport, que tem um vista magnífica do centro de Auckland e que se atinge por ferry, a partir do porto central de Auckland, em apenas quinze minutos.

Vista da baia de Auckland

Vista da baia de Auckland

Com um centro pequeno, constituído por prédios em torno da Sky Tower, torre de onde se tem uma bela vista de toda a baia, Auckland, como outras cidades da Nova Zelândia, tem um que de provinciana. Em pouco tempo é possível percorrer a pé todo o centro e de certa forma todo mundo se conhece. Veja o nosso exemplo: fomos ao Portland Pub que fica num bairro chamado Kingsland, para ver dois grupos de música no Festival de Jazz de Auckland, que começava neste dia.

O primeiro chamava-se The Troubles e tinha uma formação inusitada, em que baixo, bateria e saxofone juntavam-se a três violinos e um violoncelo. Chegamos quando o show já havia começado e saia gente pelo ladrão. O Portland Pub era como que uma casa, pois haviam algumas partes mais ao fundo em que as pessoas estavam sentadas em sofás e cadeiras confortáveis em torno de mesas de centro. Bem perto da porta a banda se espremia junto ao público. Com muito custo consegui passar e chegar até o bar onde, para a minha surpresa, as cervejas foram servidas em frascos de vidro grande, reutilizado a partir de vidros de azeitona, algo que se revelou bem comum na NZ. A banda tocava uma mistura de jazz e música árabe e a cada música o público, bastante atento, vibrava com emoção. Mais tarde fiquei sabendo, por Alda Resende, música mineira que mora em Wellington e com quem encontrei nesta cidade, que o baixista, o baterista e o saxofonista da The Troubles tocam com ela, que conhece bem todo o restante dos músicos. Como diríamos, o mundo é pequeno mas na Nova Zelândia parece ser menor ainda. Após terminar o show da The Troubles, conseguimos finalmente nos sentar bem em frente ao palco, na expectativa de curtir o show da próxima banda. Curiosamente, fomos avisados por uma das pessoas que trabalhava no pub que ele iria tirar todas as mesas antes de começar o show da próxima banda, na expectativa de que as pessoas tivessem como dançar no espaço ante ocupado pelas mesas. Começou a tirar a nossa mesa e alguns do vizinhos da mesa ao lado, também de pessoas de nossa idade, ficaram curiosas para saber o que estava acontecendo. Logo tiraram todo as mesas da primeira fila. Nos mudamos para um mesa bem no fundo, mas não teve jeito. Depois de algum tempo, tivemos que deixar também essa mesa. Curioso é que quem procurava mesa para sentar-se eram justamente as pessoas da nossa idade, os tios do local.

Logo começou o show da outra banda, Yoko-Zuna, que tocava uma música eletrônica com um toque de jazz, muito bom. Era formada por uma meninada. Multicultural como Auckland, que tem um população asiática e ainda outra descendente dos Maoris, essa banda tinha um guitarrista com cara de europeu, um saxofonista asiático, um tecladista Maori, e um baterista e a cantora com um aspecto multicultural, no qual é difícil perceber a origem exata. Foi uma noite memorável em que tomamos contato com a música feita na Nova Zelândia.

No outro dia fizemos um passeio pela baia de Auckland, parando em uma das ilhas. A baia é muito grande e tem belas águas muito azuis. Há um cais de porto bem no centro de Auckland, de onde saem as barcas para as diferentes localidades que ficam em torno da baia. Há um hotel que tem a forma de um barco, ao lado desse porto de barcas. No centro fica a Sky Tower, onde subimos para ver uma das vistas mais bonitas que já presenciei. Impressiona essa coisa de ter um grande baia rodeada por oceano por dois lados. É uma imensidão de águas calmas, torneadas por morros que indicam o lugar onde ficavam vulcões e pelo mar revolto dos oceanos. A maioria das praias tem pedras de origem vulcânica e a própria Nova Zelândia apresenta uma série de vulcões extintos.

Praia com pedras vulcânicas

Praia com pedras vulcânicas

No terceiro dia visitamos o galeria de artes de Auckland, que fica numa das suas colinas, no Albert Park. Tem um parte dedicada a arte contemporânea que exibia a exposição Robert Ellis, artista inglês que migrou para a Nova Zelândia. Os quadros tem todos motivos semelhantes, que retratam mapas de cidades em locais inusitados. Há uma verdadeira obsessão pelas artérias de tráfico em cidades, mas tudo com um toque bastante contemporâneo. Ellis investigou questões culturais sobre terra, interpretando como nos relacionamos com lugares e como impactamos o ambiente nas suas pinturas vigorosas e abstratas.

Neste museu tivemos ainda oportunidade de ver artistas europeus de diferentes épocas representando o que faziam os Maoris, a população local na Nova Zelândia quando da chegada dos europeus. Alguns têm comentários bastantes críticos, feitos pelos próprios descendentes dos Maoris, com o que retrata a chegada dos Maoris a Nova Zelândia, no qual famintos Maoris fazem um esforço descomunal para impulsionar os remos, algo que é considerado uma idealização romântica, pois este povo dominava como ninguém a arte da navegação. Por fim visitamos uma interessante exposição de instalações feitas com luz e seus efeitos. Esses trabalhos usam o fenômeno da luz para intensificar a percepção do mundo a nossa volta, engajando nossa mente e a visão de modo a nos fazer submergir num ambiente impressionante.

A história desse país começou com os Maoris, polinésios do leste que chegaram a Nova Zelândia por volta de 1200 e aí se estabeleceram e criaram uma verdadeira civilização. O primeiro europeu que se tem notícia foi o holandês Abel Tasman, que por aqui andou em 1642, e teve 4 homens mortos em conflitos com os Maoris, que tiveram uma baixa. Depois disso, apenas em 1769 chegou por aqui o famoso capitão britânico James Cook, que já mencionamos nas nossas andanças por Sydney, Austrália, e que mapeou todo o litoral da Nova Zelândia. A história da colonização deste país é um tanto diferente daquela da Austrália, pois os Maoris tinham noção de suas terras e de sua propriedade. A introdução de armas de fogo pelos europeus contribuiu para que entre 30.000 e 40.000 maoris tenham sido dizimados em luta intertribais naquela que ficou conhecida com a Guerra dos Mosquetes e que aconteceu entre 1801 e 1840. Em 1840 foi assinado o Tratado de Waitangi, pelo qual o rei da Inglaterra reconhecia o direito de posse de terra pelos Maoris que em troca lhe garantiam a soberania do território neozelandês,  então ameaçado por tentativas de colonização francesa. Dessa forma, ainda que tenham sido na sua maioria convertidos por missionários cristãos, os Maoris de alguma forma se impuseram enquanto civilização e tiveram um tratamento diferenciado do reservado aos aborígenas australianos.

Fontes termais de Wai-O-Tapu

Fontes termais de Wai-O-Tapu

Em Auckland começamos a aventura pela Nova Zelândia, um país em que a história geológica está acontecendo e que tem muitos mundos naturais em duas ilhas que têm área bem inferior a Minas Gerais. Rotorua é um desses lugares. As fontes termais de Wai-O-Tapu, que ficam a meia hora de carro de Rotorua, parecem ter saído de outro mundo, um mundo meio jurássico retratado nos filmes, em que a terra ferve explodindo gotas de gás sulfídrico por toda a extensão de uma lagoa, ou que um barulho profundo pareça emergir do fundo da terra em bolhas, ou que uma lagoa assuma uma cor alaranjada, enquanto em outra parte aparenta uma cor verde clara. Aqui você percebe que a Terra, geologicamente falando, está viva. É esta vida que faz com que vapores emerjam em cada parte que percorremos, que lagos adotem um cor estranha, que a terra rompa em um Gêiser de mais de 10 metros de altura, provocado pela adição de uma espécie de detergente que quebrou a tensão superficial da fonte no fundo da terra, rompendo no ar em um grande espetáculo.

A cidade de Rotorua, em si, é um pouco artificial, nasceu já como uma destinação turística, tem um centro com meia dúzia de quarteirões com lojas de sourvenir, butiques e comidas que variam do fish and ships aos kibabes, passando por Pubs que servem hamburgues, e finalmente McDonald e todo o resto do fast food. Ficamos hospedados num hotel que ficava a uma distância razoável desse centro, de modo que tivemos que ir no nosso carro alugado comer kibabe.  As termas ficam perto do lago, de modo que é possível ver toda sua extensão quando estamos nos banhos termais que nos fazem sentir completamente relaxados numa água que varia de 40 a 44o C. Como é gostoso este banho, que parece nos livrar de todos os males dos mundo.

Termas de Rotorua

Termas de Rotorua

Todo o tempo em que estivemos em Rotorua estava nublado, chuvoso e fazia muito frio. Isso aumentava a produção de fumaça nas fontes termais e toda a cidade parecia imersa em fumaça. Todo a região fede gás sulfídrico, o cheiro característico de um pum, mas logo acostumamos com esse cheiro esquisito, que ficou na roupa de banho. Quando saímos da região da Rotorua, o sol voltou a nos brindar e passeamos toda a tarde por diferentes e belas praias na península de Coromandel. É curioso como o clima da Nova Zelândia é um fenômeno local, que muda radicalmente quando andamos apenas 50 quilômetros na estrada. Assim, nesse dia, na nossa volta a Auckland, saímos de Rotorua, onde chovia e fazia frio, para encontrar sol nas praias da península de Coromandel. Que pena que o tempo que tínhamos para curtir essa península famosa por suas praias era pequeno.  O sol logo se despediu de nós numa das belas paisagens a beira-mar.

Pôr do Sol em Rotorua

Pôr do Sol em Rotorua