Trip Global: Hong Kong e Macau

Nós chegamos a Hong Kong depois de 12 horas de voo a partir de Auckland. Portanto, já estávamos viajando há mais de 14 horas pois havíamos partido de Wellington, que fica a uma hora de voo de Auckland. Tudo isso dentro do mesmo dia, pois a diferença no fuso horário de Auckland a Hong Kong é de 4 horas. Quando o avião baixou para pousar em Hong Kong, avistamos vários navios que estavam fora da baía. O aeroporto de Hong Kong é enorme e tem um trem expresso que serve a cidade, mas cujo preço não compensa no caso de 3 pessoas. Neste caso, o taxi sai mais barato. Como já eram mais de 9 horas da noite e o taxi passa a maior parte do trajeto em vias expressas, não houve problema de tráfego e depois de 40 minutos estávamos à porta do hotel, que ficava em Kowloon, em frente a ilha de Hong Kong, onde está situado o centro financeiro, que tem a maioria dos grandes arranha-céus que fazem a vista da baía de Hong Kong a grande atração turística da cidade.

Templo dos 10 mil budas

Templo dos 10 mil budas

Hong Kong é uma cidade sui generis, hiper povoada. São três níveis de cidade, todas igualmente complexas. Há uma cidade subterrânea, que fica entre as estações de metro. Ali pode-se encontrar shoppings inteiros, com lojas de todos os tipos, praça de alimentação, tudo subterrâneo. É engraçado, pois muitas vezes passamos horas entre trens e estações subterrâneas, como se fossemos tatus. No dia em fomos a um templo budista chamada de Templo dos 10 mil budas, tivemos uma experiência desse tipo. Na volta, resolvemos ir à Times Square para jantarmos. Em primeiro lugar passamos uns 30 minutos num trem. Quando descemos, andamos pelo menos 10 minutos até chegarmos ao metrô, tudo debaixo da terra. Paramos numa estação da Tsuen Wan Line e tínhamos que ir para a Island Line. Aí gastamos 15 minutos andando pelo subsolo, por entre lojas e restaurantes. Daí pegamos o metrô para Times Square e descemos num lugar em que tivemos que andar pelo menos mais 5 minutos debaixo da terra para sair da estação. Ao todo ficamos aí pelo menos 1 hora, entre trens e estações.

Para além dessa cidade subterrânea, há uma cidade aérea, constituída por passarelas que ligam edifícios, principalmente na zona comercial e financeira da  Ilha de Hong Kong. É uma loucura, pois pode-se percorrer grandes distâncias em passarelas e interior de edifícios, sem nunca ter que pisar na rua. Essa parte da cidade, assim como a subterrânea, não está no google maps, que nos informa os caminhos pelas ruas mas não pelas passarelas aéreas e passagens subterrâneas, que em alguns lugares são o meio mais confiável de se andar pela cidade. No dia em que fomos ao Champanhe Bar, ouvir a um jazz, tivemos essa experiência. Saímos da estação dentro de um prédio e descobrimos que a única forma de alcançar o local do bar era cruzando a Connaught Road e depois usando uma dessas passarelas, que era visível e enorme.

Protestos

Protestos

O mais engraçado foi que, ao finalmente encontrarmos a Connaught Road, que é uma das principais avenidas na ilha de Hong Kong, nos deparamos com centenas de barracas, que pertenciam ao movimento que protesta contra mudanças na política de Hong Kong. Essas mudanças são consequência do fato de Hong Kong ter deixado sua condição de colônia da Grã-Bretanha e ter-se tornado região autônoma pertencente à China. Mais ou menos um mês antes de chegarmos, Hong Kong estava na mídia, em função desses protestos. Havia repórteres de todas as grandes agências dando cobertura ao vivo desde Hong Kong em todas as TVs da Austrália e da Nova Zelândia, e também na BBC, CNN, etc. Tínhamos notícias dos protestos de Hong Kong em todos os jornais. Quando os grupos decidiram acampar numa grande avenida no centro, o fato também foi amplamente noticiado. Mas depois de umas duas semanas, tudo sumiu da mídia como se os protestos tivessem terminado. Mas não acabou, estava lá, nós presenciamos. Para a mídia, no entanto, já não causava tanto impacto e esta decidira mudar de assunto, antes de o assunto se encerrar. É engraçado com age a grande mídia em relação a todos os protestos que duram muito tempo. Foi assim em relação ao “Ocupem Wall Street” ou em relação às greves de professores universitários que duraram mais de um mês. Há uma lógica da novidade que perpassa a grande mídia. Por isso, qualquer protesto mais demorado, mesmo que tenha conseguido por algum tempo ter atraído a cobertura, até ao vivo, ao fim de uma ou duas semanas vai sumir do noticiário.

Voltando ao nosso trajeto por passarelas e prédios, depois de atravessarmos a Connaught Road, subimos a uma dessas passarelas e nos pusemos a caminhar. A passarela acabou num edifício ultra contemporâneo, entramos, descemos um andar e entramos em outra passarela. E fomos, de passarela em passarela, passando por modernos edifícios, até que descemos em frente aos jardins do prédio do hotel onde ficava o Champanhe Bar. Um hotel 5 estrelas, com muito luxo, e uma bar de happy hour, com executivos conversando animadamente, um excelente duo de jazz, com pianista e saxofonista, mas num ambiente muito barulhento por causa de tantas pessoas muito interessadas na conversa e pouco no jazz.

Névoa seca sobre a cidade

Névoa seca sobre a cidade

Finalmente, em meio a essas duas cidades, uma abaixo e outra acima, há uma cidade “normal”. Essa cidade vez por outra desaparece frente a cidade aérea, e ficam apenas os carros. Outras vezes, ela surge com força, com quarteirões inteiros dedicados a um tipo de comércio, como as ruas dos produtos eletrônicos, que fica em Mong Kok. Não é muito fácil se deslocar a pé em Hong Kong por qualquer uma dessas vias, pois todas estão cheias de gente. De onde sai tanta gente? Há enormes conjuntos de edifícios, cada um com mais de 30 andares, que povoam toda a periferia de Hong Kong. Mais perto da região central, há muitos apartamentos, quase nenhuma casa. Mesmos os parques de Hong Kong ficam escondidos por prédios comerciais. Não há árvores plantadas nas ruas, de modo que na região central há muito pouco verde.

The Peak

The Peak

Há também uma névoa seca que está o tempo todo sobre a cidade. É impressionante, pois essa névoa impede mesmo que se veja claramente os edifícios do outro lado da baía, ou do alto do The Peak, onde fomos atraídos pela vista da cidade. De certa forma, esse conjunto de fatores – a névoa seca constante, a quantidade de gente por todo o lado e a falta absoluta de verde – tornam Hong Kong um pouco opressiva. Parece que as pessoas não têm o que fazer nas horas de folga a não ser comprar. Todos as lojas e shoppings estão o tempo todo cheias de gente. É uma loucura.

Ned Kelly's Last Stand

Ned Kelly’s Last Stand

Numa cidade como esta, uma das principais diversões são os bares, que também nunca estão à vista, são sempre uma atração que deve-se buscar, descendo escadas para se meter no subsolo. Foi assim que encontramos o bar Ned Kelly’s Last Stand, que mantém como atração uma superbanda de jazz, formada em sua maioria por orientais, comandados por Colin Aitchison, um inglês de Newcastle, que toca trombone de vara. É muito divertido o show dessa banda, eles têm um repertório enorme. Um grande maço de partituras fica em frente a cada músico e ali eles buscam o que vão tocar a seguir. Fizemos um pedido, para que tocassem Tom Jobim, e fomos atendidos de imediato. Tocarem Wave. Colin é muito comunicativo e diverte bastante o público. O bar estava lotado. Há mesas para 8 pessoas, que normalmente são ocupadas por mais de uma turma. Quando chegamos, Regina, Joan e eu, fomos alocados numa mesa em que havia três pessoas de Hong Kong e duas pessoas da Noruega. A cerveja é deliciosa. Foi uma noite muito divertida.

Todas as noites, depois das 20  horas, há dez minutos de espetáculo luminoso, quando os edifícios se colorem, formam diferentes padrões de cor e luz, num bonito espetáculo que atrai muitos turistas para a beira do mar da baía.

Português por todos os lados

Português por todos os lados

No domingo, na véspera de partirmos para Tóquio, fomos a Macau, que fica a uma hora de barco veloz. É estranho porque, apesar de estarem na China, tanto Macau como Hong Kong são províncias autônomas e por isso têm status de países independentes. De forma que precisamos de passaporte para entrarmos. Passamos pela imigração em Hong Kong, para sairmos, e novamente em Macau, para entrarmos. Quando chegamos em Macau nos dirigimos ao centro velho, onde os edifícios lembram as nossas cidades históricas. É curioso que o português está por todo o lado – no nome das ruas, nos estabelecimentos de comércio, nos menus dos restaurantes. O nome desta rua nos deu curiosidade de saber a sua origem. É de chunambo que deriva a palavra Chunambeiro, empregada em Macau para designar o antigo local, próximo da fortaleza de Bom Parto, no extremo sul da baía da Praia Grande. Nesse local havia antigamente fornos de cal de ostras, que é justamente o significado de chunambo. Mas não encontramos ninguém que falasse português. Cantonês todos falam, inglês uma boa parte, mas português, é muito raro, talvez haja pessoas mais velhas que falem.

Cassinos

Cassinos

Macau se tornou independente de Portugal em 1997. Era uma das colônias mais antigas, datada de 1557. Foi de Macau que os portugueses trouxeram o arroz que constitui-se num dos principais alimentos dos brasileiros. Era um lugar de muitos cassinos e continua a ser a única localidade na China onde o jogo é permitido. Os cassinos estão em edifícios enormes, situados ao longo de toda Macau.

Fachada de São Paulo

Fachada de São Paulo

No centro ficam edifícios históricos. Um deles, a fachada da São Paulo, fazia parte de um igreja construída em 1602, que foi destruída num incêndio e da qual só restou a fachada. Perto da fachada de São Paulo há um forte, do qual se avista toda Macau. As casas empilhadas lembram um pouco as nossas favelas. As ruas e todas as lojas estavam lotadas de chineses, todos muito animados e comprando muito. Quando chegou a hora de partirmos, resolvemos tomar um ônibus para o porto. Havia uma grande confusão de gente a procura de ônibus, num terminal da cidade. Não sabíamos que haviam dois portos dos quais sai o barco para Hong Kong e, em meio a confusão do terminal, tomamos  o ônibus para o porto errado. Mas no final deu tudo certo e chegamos finalmente a Hong Kong, um pouco exaustos da viagem, mas prontos para partir para Tóquio no dia seguinte.

Semelhança com favelas

Semelhança com favelas

Trip Global: A Ilha do Sul, Nova Zelândia

A nossa viagem à Ilha do Sul da Nova Zelândia começou com a navegação pelo Estreito de Cook, que separa as duas ilhas que constituem o país. A travessia inicia-se no porto de Wellington. Pegamos o ferry num dia em que o tempo não estava bom, ventos de mais de 40 quilômetros por hora. Enquanto estávamos na baia, durante a primeira hora da travessia, não houve problema. Mas quando chegamos ao mar aberto, o grande navio parecia uma casca de nozes, jogava muito e balançava-se ao sabor das ondas no mar revolto. Vimos várias pessoas passarem mal. Eu fiquei completamente branco e não enjoei por pouco. Foi um drama que só encerrou-se quando daí a duas horas o navio entrou no Queen Charlotte Sound. Esse nome, Sound, é dado ao bonito conjunto de baias, quando o mar entra em meio às montanhas, o que cria regiões de mar calmo e muito belo, pois tem-se o contraste direto da montanha com o mar.

Queen Charlotte Sound

Queen Charlotte Sound

Até aqui descrevi a viagem da Nova Zelândia falando de duas cidades que visitamos: Auckland e Wellington. Apesar de já abordarmos temas não tão urbanos, como a viagem que fizemos à região de fontes termais de Rotorua, haverá um diferença importante no relato que ora inicia-se: esse será principalmente dedicado às belezas naturais dessa parte da NZ, pois aí só ficamos hospedados em cidades pequenas, que são bem organizadas, mas com poucas atrações que valham retratar.

Mark e Loren

Mark e Loren

Começamos nossa viagem por Picton, em que chegamos no final da tarde, exaustos pela turbulenta viagem pelo estreito de Cook. Ficamos apenas uma noite num Bed & Breakfeast bem familiar, situado numa bela casa com vista da baia onde chegam os ferrys. Saímos para jantar e fomos brindados no Pub com um excelente som de dois violões, divinamente tocados por um Mark, neozelandês e Loren, norte americano, que fazem um estilo instrumental country bastante sofisticado, ponteado por solos precisos de um e de outro violonista. Foi uma surpresa ouvir um som dessa qualidade na pequena Picton: os violonistas estão em excursão pela Nova Zelândia e estão fazendo shows em mais de 20 cidades.

PIcton

PIcton

No dia seguinte fomos à locadora buscar o carro que usaríamos em viagem de 12 dias, em companhia de Joan Scott,  por praticamente toda a Ilha do Sul. Partimos para Nelson curtindo a estrada que sai de Picton pelo Queen Charlotte Sound, o mesmo que havíamos passado na tarde anterior sem, no entanto, ter condições de prestar atenção como consequência do mar revolto que nos tirou do sério. Agora tínhamos uma grande vista do mar, enquanto serpenteávamos por entre as curvas. Ao longe vimos o primeiro pico nevado, algo que nos causou emoção mas que se tornaria lugar comum nessa viagem pela ilha do sul.

Dayna Sanerivi e trio

Dayna Sanerivi e trio

Chegamos a Nelson no começo da tarde. Essa é tipicamente uma cidade neozelandesa média, com um centro pequeno, povoado de pubs e de lojas. Depois de almoçarmos em um dos pubs fomos a um parque, que fica a uns dois quilômetros do centro, atrás das atrações do Festival de Música de Nelson, que soubemos estar acontecendo por esses dias. Chegamos ao local, um café com um palco amplo e uma sala razoavelmente grande, quando as pessoas já estavam sentadas a espera do show, de modo que não foi muito fácil encontrar algumas cadeiras, que acomodamos a um canto da sala. Logo começou o show de uma cantora neozelandesa, Dayna Sanerivi, que interpreta clássicos de cantoras do jazz, como Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. A banda tinha ainda um pianista (Dai Minamizawa), um baixista (Paul Gilmour) e um bom saxofonista e clarinetista (Simon Williams), mas fazia muita falta um baterista. Depois do show voltamos a pé para o hotel, curtindo pela primeira vez um céu estrelado.

Parque Marítimo Abel Tasman

Parque Marítimo Abel Tasman

No dia seguinte foi a vez de irmos ao parque marítimo Abel Tasman, que ocupa toda uma península a noroeste da Ilha do Sul. Antes de chegarmos ao parque percorremos 60 quilômetros numa estrada cheia de vinhedos, kiwis e outras árvores frutíferas para produção. Essa é a região de Nelson, também famosa pelos seus vinhos, peras e maçãs. Quando chegamos ao parque, caminhámos por uma trilha entre as matas do parque, sempre com o mar a vista, subindo montanhas quando tínhamos que contornar um garganta mais profunda, ou passando bem rente quando o mar se abria em praias. Nestas matas há muitas samambaias gigantes e, nos morros, muita água corrente. A paisagem lembra um pouco a da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, mas o mar é mais azul.

Descanso para lanche

Descanso para lanche

Foi um grande prazer caminhar duas horas e meia por essas trilhas até chegarmos a uma praia comprida, onde descansamos e curtirmos nosso lanche. Quando voltamos para o hotel em que estávamos hospedados, Regina preparou um suculento jantar regado a um bom vinho neozelandês. Fomos dormir tranquilos, preparados para a viagem que faríamos no dia seguinte, rumo ao sul da ilha pela sua parte leste, a um destino que muito aguardávamos: Kaikoura, onde nos aguardava um passeio para ver baleias.

Focas Neozelandesas

Focas Neozelandesas

O dia amanheceu chuvoso, como é comum nesta época na Nova Zelândia. A primavera, descobrimos, é uma estação que pode ter todas as estações num único dia. A estrada serpenteava por entre as montanhas que tinham os picos cobertos por densas nuvens e assim continuou até quando estávamos a uma hora de Kaikoura, quando enfim alcançamos o mar. Paramos numa entrada onde havia vários carros estacionados. Continuava a chover, muito fino, e percebemos que ali havia um grande colônia de focas neozelandesas, que é um bicho muito interessante. Vive em bandos, em lugares onde há rochedos a beira-mar e não se espanta com a presença dos humanos. Depois de uma hora por essa estrada deslumbrante a beira-mar, atingimos Kaikoura, uma cidadezinha que vive dos passeios para ser ver baleias. É tão certo que um passeio de barco irá resultar na vista de baleias que os organizadores prometem devolver 85% do dinheiro pago se acontecer de não se avistá-las ao fim do passeio.

Kaikoura

Kaikoura

Kaikoura já foi um centro de pesca a baleias e os homens daqui saiam para caça-las em barcos pequenos, o que exigia muita coragem. Ao final, a atividade de caça deu lugar a atividade menos predatória de passeios para curtir a vista desse grandes mamíferos do mar. A cidade se encontra no começo de um dos lados de uma grande península, que adentra o mar por uns 5 quilômetros e que tem uma frente de uns três quilômetros. Ao chegarmos ao extremo dessa frente, que se alarga, subimos a pé por uns 50 metros e percorremos a pé até atingir o outro lado da península. Tem-se uma bonita vista do mar , apesar da chuva fina que caia.

Neve inesperada

Neve inesperada

No dia seguinte amanheceu um sol deslumbrante, sem uma nuvem no céu. Quando saímos do quarto, olhamos para trás e para o nosso assombro havia uma enorme montanha, toda coberta de neve fresca, que havia caído no dia anterior sem que pudéssemos ver, pois estava tudo coberto de nuvens. Logo nos dirigimos ao local de onde sairia o passeio. Na chegada notamos que ventava muito e que o mar estava revolto. Ao adentrar o local, descobrimos que todos os passeios do dia haviam sido cancelados. Ou seja, apesar da certeza com que saem a cata das baleias, os organizadores só o fazem com o mar muito tranquilo, para evitar o que já havíamos testemunhado na travessia do estreito de Cook. Não nos restou alternativa: seguimos mais para o sul.

Christchurch

Christchurch

A próxima parada que fizemos não constava do nosso roteiro, principalmente pelo fato de ter sido arrasada por um terremoto em 2012: Christchurch. Mas como tínhamos tempo, resolvemos dar uma passada para conferir. Ficamos desolados. Todo o centro da cidade foi completamente destruído. Da bela igreja só restou a fachada. A cidade é um canteiro de obras e no lugar do centro foram dispostos containers com bares e pequenos restaurantes, que ficam apinhados na hora do almoço. Não tivemos outra opção que não partir.

Timaru

Timaru

A paisagem vai aos poucos mudando à medida em que entra-se na região de Otago. A ilha do sul tem 6 regiões que diferem bastante em relevo e situação econômica: Nelson, Marlborough, Cantebury, Otago, Westland and Southland. Em Otago, entra-se numa região de planícies, e a viagem fica muito monótona. Por toda a parte o que se vê são imensos pastos de verde intenso e grandes rebanhos de gado leiteiro, ovelhas e cervos. Depois de percorrermos essa região por mais de duas horas chegamos finalmente ao nosso destino de pouso: a cidade de Timaru. Apesar de ter um centro histórico preservado e bonito, Timaru não é uma cidade turística. Vive basicamente do porto, que tem um grande movimento. Saímos para passear as 5 horas da tarde e parecia que estávamos numa cidade fantasma: não havia vivalma nas ruas. Acabamos o passeio num velho prédio que serviu de depósito e foi reconstruído como um Pub, muito bacana, onde finalmente encontramos muita gente. Jantamos deliciosos pratos de carne de cordeiro, peixe e frutos do mar. No dia seguinte partiríamos cedo para Queenstown.

Anaka

Anaka

Na viagem, depois de mais de uma hora ainda na planície, as montanhas foram reaparecendo aos poucos, tornando-se cada vez mais altas, até serem todas coroadas por neve. É curioso como a estrada não se enchia de curvas à medida em que a região se tornava cada vez mais montanhosa. O fato é que seguíamos por um vale, a altitudes cada vez maiores. Finalmente a estrada começou a serpentear mas logo estávamos em Anaka, que fica a 60 quilômetros de Queenstwon e tem também um belo lago, com montanhas nevadas ao fundo. Nesta região são comuns as criações de carneiros e veados. O curioso na criação de veados é que quando nos aproximamos do rebanho, eles fogem em bando, se mantendo juntos. Regina nos explica que essa é uma característica dos cervos, por serem animais facilmente estressáveis. Em Queenstown tive a oportunidade de saborear a carne de veado, que é chamada vernisson, é muito macia e saborosa. Partimos de Anaka por uma estrada secundária, que chega em uma montanha vizinha ao nosso destino, de onde se vê parte do lago e toda a cidade de Queenstown. Havia muita neve no chão, sinal de que havia nevado na noite anterior. Descemos por uma estradinha cheia de curvas muito fechadas e atingimos finalmente o nosso destino nos próximos 3 dias.

Queenstown é uma cidade um pouco estranha, em meio a uma paisagem belíssima. Há hotéis enormes, todos com sacadas, por todos os lados do lago, embora mais acima, nas encostas das montanhas, predominem casas. O lago é de um azul profundo e circundado por montanhas com picos nevados. É uma cidade cheia de turistas durante todo ano. No inverno, eles procuram as estações de esqui. No verão, o lago é usado para esportes aquáticos e pesca. Na primavera e outono, há muitas caminhadas. Na primeira manhã saímos para explorar uma caminhada às montanhas, numa trilha conhecida como Queestown Hill Walkway. Subimos mais de 500 metros, num grande esforço. Depois de duas horas fomos recompensados por uma vista lindíssima, regada a um bom vinho neozelandês que havíamos carregado morro acima.

Depois de Queenstown partimos para Te Anau, que é a porta de entrada do Milford Sound, a entrada de mar mais bela que existe na Nova Zelândia, pois as montanhas são altíssimas e formam um paisagem de fiordes. Te Anau também fica a beira de um lago, rodeada por montanhas. A cidade é pequena e serve de base aos visitantes dessa região. No dia seguinte saímos cedo, pois iríamos fazer um passeio de barco pelo Milford Sound. Mas também não tivemos sorte. O tempo em Te Anau era bom mas para o Milford Sound anunciavam uma tempestade, de modo que já no hotel o dono comentou conosco, enquanto nos preparava deliciosos omeletes, que havia grande possibilidade de a estrada estar fechada a partir do ponto que fica a 30 quilômetros de Milford Sound. Quando saímos da cidade já havia uma mulher da firma responsável pela estrada que nos parou e disse que ela havia sido fechada. Perguntamos sobre as condições de ir até o ponto onde foi fechada e ela nos respondeu que poderíamos ir, mas com cuidado, pois uma tempestade estava anunciada e ventos fortes costumavam derrubar galhos de árvore na estrada.

Arco-íris em Fiordlands

Arco-íris em Fiordlands

Valeu a pena termos ido. Estávamos nos Fiordlands, uma região enorme ao sudoeste da ilha do sul que é completamente desabitada. Tem-se unicamente a estrada que estávamos percorrendo e picadas a serem percorridas a pé. Do lado oeste, tem-se muitos sounds, que permitem a entrada de barco, mas para chegar a lugar nenhum. A mata é virgem e a estrada vai percorrendo um vale com montanhas cada vez mais altas. Começou a chover mas ainda havia sol e notamos que se formavam arco-íris inteiros, às vezes 3 concêntricos, num belo espetáculo que nem sempre conseguimos capturar com a máquina fotográfica. Na volta havia um parte da estrada que estava em meia pista, com máquinas trabalhando, pois caíra uma grande árvore, fechando uma pista. Atravessamos pelo menos uns três quilômetros com muitos galhos espalhados pela pista. Ainda bem que não aconteceu quando passávamos. Ficamos com uma bela impressão da região, embora não tenhamos feito o passeio ao Milford Sound.

Geleira Franz Josef

Geleira Franz Josef

No dia seguinte começamos a nossa volta que, ao contrário da ida, seria feita em apenas dois dias nos quais cobriríamos 1100 quilômetros. Tivemos que descer a Queenstown  novamente, pois apesar de estarmos mais ao norte em Te Anau, não há saída por ali. Optamos por voltar pelo oeste da ilha, justamente no caminho que não tínhamos feito, e prevíamos uma parada em Franz Josef Glacier, região vizinha ao monte Cook, o mais alto da Nova Zelândia, onde há uma série de geleiras. A volta no primeiro dia foi sob chuva e dessa vez com pancadas fortes. Um pneu furado nos atrasou um hora, no único incidente que tivemos por toda ilha do sul.  A volta pelo oeste é marcada por regiões vazias, cobertas de florestas densas, cercadas por altos picos, que ficaram invisíveis devido a chuva, e inúmeras cachoeiras, que saltavam com toda a força, algumas muito próximo à estrada. Chegamos em Franz Josef ainda sob chuvas, mas ao sairmos do Pub onde fomos jantar a chuva havia cessado e as nuvens começavam a dissipar, mostrando os picos nevados. No outro dia, acordamos cedo e fomos ver a geleira Franz Josef. Uma grande massa de gelo que se precipita por entre duas montanhas. O céu estava azul e a paisagem linda. A seguir, partimos para a etapa final de nossa viagem pela ilha do sul rumo a Picton, onde entregaríamos o carro e tomaríamos o ferry de volta a Wellington. Foram 550 quilômetros quase o tempo todo sob sol e céu azul. Dessa vez, a viagem ocorreu num mar tranquilo, para deixar uma boa lembrança. No outro dia cedo embarcaríamos para Hong Kong dando adeus a bela Nova Zelândia, que nos marcou com muitas boas lembranças.

Trip Global: Wellington, Nova Zelândia

Baia de Wellington

Baia de Wellington

Wellington é a capital da Nova Zelândia. Uma cidade relativamente pequena, de 400 mil habitantes, mas que ferve nos seus bares, pubs  e nightclubs.  A cidade, a exemplo de Auckland, também fica numa baia, de águas muito azuis e límpidas. Apesar de ser um porto, enxerga-se o fundo a grande distância, de modo que num dia de sol é possível ver várias pessoas nadando.

Remo na baia

Remo na baia

Tivemos dois dias seguidos de sol e céu totalmente azul, sem uma nuvem, o que é uma raridade segundo os moradores. É curioso porque nesses dias de muito sol e mar tranquilo, a baia fica repleta de gente nadando, remando e fazendo yoga sobre pranchas de surf, dentro d’água. No seu normal, Wellington é uma grande ventania, com pouco sol, muitas nuvens e chuva. Ela fica no final da ilha do norte e o vento sul é como que canalizado pelo estreito de Cook, que separa a ilhas do Norte e do Sul. A cidade respira mar, pois distribui-se ao longo do porto e aí convive diariamente, recebendo ferrys que fazem o transporte para a Ilha do Sul e navios que se abastecem dos derivados do leite, lã, madeira e de vinhos, entre outras coisas.

Morros verdes em torno do centro

Morros verdes em torno do centro

Ao longo desse porto, apenas uma parte, constituída por umas três ruas paralelas, é plana. Todo o restante é montanhoso e isso proporciona um bonito espetáculo, pois em torno do centro plano e cheio de edifícios se distribuem morros com muito verde e casas bonitas. Esse centro, que gira em torno do porto, é facilmente percorrido a pé em um pouco mais de meia hora, o que dá uma ideia da sua dimensão. Entre os morros destaca-se o Victoria, que fica no lado direito da baia, e pode ser alcançado também a pé, depois de algum esforço na subida. Na subida passe-se por uma área reflorestada, e tem-se, ao final, um bonita vista de toda a baia.

Vista da baia

Vista da baia

É do alto do morro Victoria que temos uma ideia mais clara de quanto verde há em toda a capital neozelandesa. Atrás do centro temos o Jardim Botânico, que alcança-se por meio de uma bondinho com cremalheira, como o que nos leva ao Corcovado, no Rio de Janeiro. Depois de apreciar a vista do alto descemos por todo o Jardim, uma imensa floresta preservada praticamente no centro de Wellington, com espécimes variadas e uma tranquilidade a toda prova. Nesse trajeto, temos a impressão de estar numa área rural, pois ficamos envolvidos pela mata e pelo canto do pássaros.

Samambaias gigantes

Samambaias gigantes

A Nova Zelândia era inicialmente povoada unicamente por pássaros e outras aves, com uma extrema variedade. Foram os europeus que trouxeram os mamíferos, que extinguiram vários pássaros por ação direta, comendo os ovos de seus ninhos, ou indireta, colaborando na destruição de florestas que os abrigavam. No Jardim Botânico os pesquisadores tentam preservar um das últimas florestas naturais que ainda sobrevivem na região de Wellington. As samambaias gigantes são naturais das florestas originais e são um símbolo da Nova Zelândia. Ao final do Jardim Botânico alcançamos a rua chamada The Terrace, que fica já a meio caminho da montanha, mas ainda cheia de edifícios.

Museu Te Papa

Museu Te Papa

Em Wellington tivemos oportunidade de ir ao museu Te Papa, que é um grande centro interativo que abriga o museu histórico, de ciências e de artes da Nova Zelândia. É lá que fica uma das maiores coleções de objetos e fatos relacionados aos habitantes originais da Nova Zelândia, os Maoris. Há inclusive exemplos de casas desse povo, casas de religião, ferramentas que eram usadas, vestiário, e grande acervo de vídeos e fotos. Segunda a narrativa Maori, a ilha do Norte é um peixe com a boca aberta, no momento em que é fisgado pelo pescador que está numa canoa, que é a ilha do Sul. A boca aberta é justamente a baia onde está situada Wellington. No último andar há uma exposição de arte que inclui artistas neozelandeses desde a sua fundação em 1840, até artistas contemporâneos tanto no estilo europeu como Maori. Nada muito estonteante, mas uma exposição que faz jus à história recente da Nova Zelândia e retrata vários líderes maoris.

Líder Maori

Líder Maori

Nas proximidades de Wellington fizemos uma visita guiada a vinícolas, todas situadas na região produtora de Martinborough. É curioso que deixamos Wellington de trem, numa manhã fria e chuvosa, em que ventava muito. Continuamos com o mal tempo por uma meia hora até que entramos num túnel no qual permanecemos por uns 10 minutos. Ao final do túnel, para a nossa surpresa, havia tempo bom, com sol e céu azul. Como disse no relato de Auckland, há vários climas completamente locais na Nova Zelândia, divididos por uma montanha, por exemplo.

Nova Zelândia Rural

Nova Zelândia Rural

Foi bom ter feito toda visita às vinícolas com tempo bom, pois curtimos as plantações de uva na bela paisagem rural da Nova Zelândia. Fomos a 4 vinícolas, onde fomos recebidos por pessoas diretamente envolvidas na produção dos vinhos, prontos a responder perguntas as mais diversas possíveis, enquanto nos serviam pequenas porções de vários dos vinhos lá produzidos. Começávamos pelo Pinot Griss, um vinho bastante frutado, passávamos ao Chadornay e ao Sauvignon blanc, brancos mais tradicionais,  e então para provávamos os tintos Pinot Noir e Shiraz. Pinot Noir é uma uva típica da Borgonha, na França, região das mais conhecidas pela produção de vinhos de qualidade, mas se adaptou muito bem a Nova Zelândia, que tem produção recente mas de muita qualidade. Nas regiões vinícolas os vinhedos se perdem na imensidão da planície, onde quase sempre são plantadas as uvas neozelandesas. A Nova Zelândia hoje exporta seu vinho para os quatro cantos do mundo. Na segunda vinícola que visitamos há produção artesanal de um vinho do tipo Porto, muito bom. O dono da vinícola foi quem nos recebeu e deu seu relato sobre o que é produzir vinho numa região que tem muita geada, o que congela a vinha e mata a produção. Para evitar que a vinha permaneça congelada os produtores usam diversos métodos: água borrifada no vinhedo, aquecedores a gás e até helicóptero. O prejuízo as vezes é tanto que vale mais a pena comprar uva de outra propriedade para não parar de produzir naquele ano.

Turma da vinícola

Turma da vinícola

Ganhamos a viagem às vinícolas de presente da nossa amiga inglesa Joan. Dela participaram ainda duas americanas que conhecemos na própria excursão: uma delas, Jamie, é uma jovem cheia de vida, recém casada e passeando pela Nova Zelândia. A outra, Gayle, é uma artista que veio conhecer técnicas de pintura dos povos Maori e dos habitantes de Tonga, uma série de ilhas no Pacífico sul. Tivemos um dia agradável em companhia também de Naomi, a nossa guia e motorista neozelandesa que trabalha para a companhia de turismo que vendeu a viagem. Ela nos pegou na estação de trem e nos levou para Martinborough, cidade que fica no centro da região produtora. Almoçamos num restaurante da cidade e no final do passeio tomamos chá acompanhado de diversos tipos de queijos. Tudo regado a vinho e a um bom papo. Ao final do dia regressamos para Wellington bem satisfeitos com os vinhos que provamos, que afinal não constitui muito mais que uma garrafa, tomada num intervalo de 5 horas.

Nesse mesmo dia tivemos o prazer de encontrar Alda Resende, cantora mineira que mora em Wellington há mais de 10 anos, com o filho do ex-marido neozelandês. Havíamos tentado o contato com Alda, sem obter sucesso. Quando fui à Embaixada Brasileira deixar um CD meu para o embaixador, que é um entusiasta da cultura, conversei com Marina, que trabalha na embaixada e é muita amiga de Alda. Deixei um CD também para Alda e marcamos de encontrar  no Matterhorn, que fica na Cuba Street, uma rua das mais movimentadas do centro de Wellington onde é possível encontrar de tudo, de uma boa comida, como a que saboreamos no Matterhorn, a roupas e assessórios para a vida ao ar livre. Conversamos longamente com Alda e Marina. Alda está satisfeita com a criação do filho no ambiente seguro e acolhedor de Wellington, que ela considera uma cidade cosmopolita e a melhor para se viver. Mas a Nova Zelândia é limitada para a sua carreira de cantora e ela já percorreu todos os circuitos de jazz existentes, inclusive o Festival de Auckland e o de Wellington. Canta regularmente em alguns bares, inclusive no próprio Matterhorn.

Marina é uma moça bonita, que é funcionária da embaixada. Discutimos um pouco da eleição para presidente no Brasil, que acompanhávamos de longe, principalmente pelo facebook e que aconteceria no domingo. Wellington seria uma das sessões eleitorais, a que votava primeiro, pois está 15 horas à frente de Brasília. Nesse dia estaríamos já na Ilha do Sul, cuja viagem começava em Wellington com o ferry, uma travessia de 3,5 horas que, dependendo do estado do oceano, não deixaria saudades. Veja o próximo post para conferir.

Wellington deixou em nós viva impressão de um porto limpo, numa cidade preocupada com o verde e com a sua preservação, com muita qualidade de vida, aliás característica de toda Nova Zelândia, e muitas opções de vida ao ar livre e ótimas opções de vida noturna.

Trip Global: Auckland e Rotorua, Nova Zelândia

A viagem a Nova Zelândia foi cercada de excitação, curiosidade e de uma leve saudade de casa, pois fazia já quase dois meses que estávamos viajando. Quando, do avião, avistamos a Ilha do Norte, bem em frente à baia em que fica Auckland, senti as emoções saltarem do coração, que batia apressado. Vi perfeitamente a transição entre o mar do oceano, agitado e com muitos rochedos, e o da baia, que apertado pelas montanhas se torna tranquilo e resplandecente. O avião contornou toda a imensa baia, passou depois por uma área industrial, deixou os edifícios de Auckland ao longe e foi pousar com o sol, no fim do horizonte.

Centro de Auckland

Centro de Auckland

No aeroporto já comprei o meu chip do celular por 29 dólares neozelandeses, que vale 0,8 do dólar americano.  A grande vantagem de trocar de chip a cada vez que se troca de país é que com o chip do país pode-se usar a internet, que vem junto com o pacote, com 1 GB. No caso neozelandês isso será muito útil, pois além de permitir localizar lugares na cidade e procurar por atrações e restaurantes, há um dispositivo no google maps que funciona como GPS e que permite que o usemos no carro que iremos alugar para viajar para Rotorua e durante os 12 dias em que estaremos na Ilha do Sul. Após comprar o chip telefonamos ao hotel, que já havia reservado um taxi para nós por 35 dólares, conforme havíamos solicitado antes por internet. Não há trens para os aeroportos na Nova Zelândia. A distância entre o hotel, situado no tranquilo bairro de Parnell, e o aeroporto é razoável e o taxi gastou uns 35 minutos, sem trânsito, para cobri-la. Chegamos já de noite ao hotel e encontramos Joan Scott, que foi a nossa grande companheira na Nova Zelândia, com quem já compartilhamos muitas viagens junto com o meu saudoso amigo Phil Scott.

Sky Tower

Sky Tower

Auckland é a porta de entrada principal da Nova Zelândia. Num pais de 4,5 milhões de habitantes, praticamente isolado do mundo, ter uma área metropolitana de 1,3 milhões a torna uma cidade de enorme importância, embora não seja a capital. No entanto, essa população está muito espalhada pelos diferentes rincões que constituem a região metropolitana, situada na enorme baia de dois portos, um do mar da Tasmânia e outro do Pacífico, e que inclui alguns bairros muito charmosos e belos, como por exemplo Devonport, que tem um vista magnífica do centro de Auckland e que se atinge por ferry, a partir do porto central de Auckland, em apenas quinze minutos.

Vista da baia de Auckland

Vista da baia de Auckland

Com um centro pequeno, constituído por prédios em torno da Sky Tower, torre de onde se tem uma bela vista de toda a baia, Auckland, como outras cidades da Nova Zelândia, tem um que de provinciana. Em pouco tempo é possível percorrer a pé todo o centro e de certa forma todo mundo se conhece. Veja o nosso exemplo: fomos ao Portland Pub que fica num bairro chamado Kingsland, para ver dois grupos de música no Festival de Jazz de Auckland, que começava neste dia.

O primeiro chamava-se The Troubles e tinha uma formação inusitada, em que baixo, bateria e saxofone juntavam-se a três violinos e um violoncelo. Chegamos quando o show já havia começado e saia gente pelo ladrão. O Portland Pub era como que uma casa, pois haviam algumas partes mais ao fundo em que as pessoas estavam sentadas em sofás e cadeiras confortáveis em torno de mesas de centro. Bem perto da porta a banda se espremia junto ao público. Com muito custo consegui passar e chegar até o bar onde, para a minha surpresa, as cervejas foram servidas em frascos de vidro grande, reutilizado a partir de vidros de azeitona, algo que se revelou bem comum na NZ. A banda tocava uma mistura de jazz e música árabe e a cada música o público, bastante atento, vibrava com emoção. Mais tarde fiquei sabendo, por Alda Resende, música mineira que mora em Wellington e com quem encontrei nesta cidade, que o baixista, o baterista e o saxofonista da The Troubles tocam com ela, que conhece bem todo o restante dos músicos. Como diríamos, o mundo é pequeno mas na Nova Zelândia parece ser menor ainda. Após terminar o show da The Troubles, conseguimos finalmente nos sentar bem em frente ao palco, na expectativa de curtir o show da próxima banda. Curiosamente, fomos avisados por uma das pessoas que trabalhava no pub que ele iria tirar todas as mesas antes de começar o show da próxima banda, na expectativa de que as pessoas tivessem como dançar no espaço ante ocupado pelas mesas. Começou a tirar a nossa mesa e alguns do vizinhos da mesa ao lado, também de pessoas de nossa idade, ficaram curiosas para saber o que estava acontecendo. Logo tiraram todo as mesas da primeira fila. Nos mudamos para um mesa bem no fundo, mas não teve jeito. Depois de algum tempo, tivemos que deixar também essa mesa. Curioso é que quem procurava mesa para sentar-se eram justamente as pessoas da nossa idade, os tios do local.

Logo começou o show da outra banda, Yoko-Zuna, que tocava uma música eletrônica com um toque de jazz, muito bom. Era formada por uma meninada. Multicultural como Auckland, que tem um população asiática e ainda outra descendente dos Maoris, essa banda tinha um guitarrista com cara de europeu, um saxofonista asiático, um tecladista Maori, e um baterista e a cantora com um aspecto multicultural, no qual é difícil perceber a origem exata. Foi uma noite memorável em que tomamos contato com a música feita na Nova Zelândia.

No outro dia fizemos um passeio pela baia de Auckland, parando em uma das ilhas. A baia é muito grande e tem belas águas muito azuis. Há um cais de porto bem no centro de Auckland, de onde saem as barcas para as diferentes localidades que ficam em torno da baia. Há um hotel que tem a forma de um barco, ao lado desse porto de barcas. No centro fica a Sky Tower, onde subimos para ver uma das vistas mais bonitas que já presenciei. Impressiona essa coisa de ter um grande baia rodeada por oceano por dois lados. É uma imensidão de águas calmas, torneadas por morros que indicam o lugar onde ficavam vulcões e pelo mar revolto dos oceanos. A maioria das praias tem pedras de origem vulcânica e a própria Nova Zelândia apresenta uma série de vulcões extintos.

Praia com pedras vulcânicas

Praia com pedras vulcânicas

No terceiro dia visitamos o galeria de artes de Auckland, que fica numa das suas colinas, no Albert Park. Tem um parte dedicada a arte contemporânea que exibia a exposição Robert Ellis, artista inglês que migrou para a Nova Zelândia. Os quadros tem todos motivos semelhantes, que retratam mapas de cidades em locais inusitados. Há uma verdadeira obsessão pelas artérias de tráfico em cidades, mas tudo com um toque bastante contemporâneo. Ellis investigou questões culturais sobre terra, interpretando como nos relacionamos com lugares e como impactamos o ambiente nas suas pinturas vigorosas e abstratas.

Neste museu tivemos ainda oportunidade de ver artistas europeus de diferentes épocas representando o que faziam os Maoris, a população local na Nova Zelândia quando da chegada dos europeus. Alguns têm comentários bastantes críticos, feitos pelos próprios descendentes dos Maoris, com o que retrata a chegada dos Maoris a Nova Zelândia, no qual famintos Maoris fazem um esforço descomunal para impulsionar os remos, algo que é considerado uma idealização romântica, pois este povo dominava como ninguém a arte da navegação. Por fim visitamos uma interessante exposição de instalações feitas com luz e seus efeitos. Esses trabalhos usam o fenômeno da luz para intensificar a percepção do mundo a nossa volta, engajando nossa mente e a visão de modo a nos fazer submergir num ambiente impressionante.

A história desse país começou com os Maoris, polinésios do leste que chegaram a Nova Zelândia por volta de 1200 e aí se estabeleceram e criaram uma verdadeira civilização. O primeiro europeu que se tem notícia foi o holandês Abel Tasman, que por aqui andou em 1642, e teve 4 homens mortos em conflitos com os Maoris, que tiveram uma baixa. Depois disso, apenas em 1769 chegou por aqui o famoso capitão britânico James Cook, que já mencionamos nas nossas andanças por Sydney, Austrália, e que mapeou todo o litoral da Nova Zelândia. A história da colonização deste país é um tanto diferente daquela da Austrália, pois os Maoris tinham noção de suas terras e de sua propriedade. A introdução de armas de fogo pelos europeus contribuiu para que entre 30.000 e 40.000 maoris tenham sido dizimados em luta intertribais naquela que ficou conhecida com a Guerra dos Mosquetes e que aconteceu entre 1801 e 1840. Em 1840 foi assinado o Tratado de Waitangi, pelo qual o rei da Inglaterra reconhecia o direito de posse de terra pelos Maoris que em troca lhe garantiam a soberania do território neozelandês,  então ameaçado por tentativas de colonização francesa. Dessa forma, ainda que tenham sido na sua maioria convertidos por missionários cristãos, os Maoris de alguma forma se impuseram enquanto civilização e tiveram um tratamento diferenciado do reservado aos aborígenas australianos.

Fontes termais de Wai-O-Tapu

Fontes termais de Wai-O-Tapu

Em Auckland começamos a aventura pela Nova Zelândia, um país em que a história geológica está acontecendo e que tem muitos mundos naturais em duas ilhas que têm área bem inferior a Minas Gerais. Rotorua é um desses lugares. As fontes termais de Wai-O-Tapu, que ficam a meia hora de carro de Rotorua, parecem ter saído de outro mundo, um mundo meio jurássico retratado nos filmes, em que a terra ferve explodindo gotas de gás sulfídrico por toda a extensão de uma lagoa, ou que um barulho profundo pareça emergir do fundo da terra em bolhas, ou que uma lagoa assuma uma cor alaranjada, enquanto em outra parte aparenta uma cor verde clara. Aqui você percebe que a Terra, geologicamente falando, está viva. É esta vida que faz com que vapores emerjam em cada parte que percorremos, que lagos adotem um cor estranha, que a terra rompa em um Gêiser de mais de 10 metros de altura, provocado pela adição de uma espécie de detergente que quebrou a tensão superficial da fonte no fundo da terra, rompendo no ar em um grande espetáculo.

A cidade de Rotorua, em si, é um pouco artificial, nasceu já como uma destinação turística, tem um centro com meia dúzia de quarteirões com lojas de sourvenir, butiques e comidas que variam do fish and ships aos kibabes, passando por Pubs que servem hamburgues, e finalmente McDonald e todo o resto do fast food. Ficamos hospedados num hotel que ficava a uma distância razoável desse centro, de modo que tivemos que ir no nosso carro alugado comer kibabe.  As termas ficam perto do lago, de modo que é possível ver toda sua extensão quando estamos nos banhos termais que nos fazem sentir completamente relaxados numa água que varia de 40 a 44o C. Como é gostoso este banho, que parece nos livrar de todos os males dos mundo.

Termas de Rotorua

Termas de Rotorua

Todo o tempo em que estivemos em Rotorua estava nublado, chuvoso e fazia muito frio. Isso aumentava a produção de fumaça nas fontes termais e toda a cidade parecia imersa em fumaça. Todo a região fede gás sulfídrico, o cheiro característico de um pum, mas logo acostumamos com esse cheiro esquisito, que ficou na roupa de banho. Quando saímos da região da Rotorua, o sol voltou a nos brindar e passeamos toda a tarde por diferentes e belas praias na península de Coromandel. É curioso como o clima da Nova Zelândia é um fenômeno local, que muda radicalmente quando andamos apenas 50 quilômetros na estrada. Assim, nesse dia, na nossa volta a Auckland, saímos de Rotorua, onde chovia e fazia frio, para encontrar sol nas praias da península de Coromandel. Que pena que o tempo que tínhamos para curtir essa península famosa por suas praias era pequeno.  O sol logo se despediu de nós numa das belas paisagens a beira-mar.

Pôr do Sol em Rotorua

Pôr do Sol em Rotorua

Trip Global: Cairns, Port Douglas e a Grande Barreira de Corais

Fomos a Cairns atraídos pela Grande Barreira de Coral australiana. Esta é uma imensa faixa de corais composta por cerca de 1900 recifes, 60 ilhas e 100 atóis de coral, situada ao nordeste da Austrália, com 2.900 quilômetros de comprimento e largura variando de 30 a 740 km. É a maior estrutura do mundo feita unicamente por organismos vivos e pode ser vista do espaço. Cairns é uma cidade particularmente bem situada para visita-la, pois está a uma distância média de apenas 60 km da Grande Barreira.

Grande Barreira de Corais

Grande Barreira de Corais

O mar da Austrália é de um azul profundo, que nos deixa tontos. Como toda cidade exclusivamente turística, Cairns nos pareceu um pouco artificial. Tem um grande alameda a beira mar, de aproximadamente 4 km, com parques e esculturas, por onde se pode caminhar, mas não tem praia, pois o mar é como que um mangue sem a vegetação característica. No final da alameda há uma grande piscina onde as crianças e jovens se divertem e na rua a beira mar ficam inúmeros restaurantes que oferecem todo o tipo de comida, inclusive a chinesa, indiana e japonesa.

Ficamos hospedados num apart hotel bem confortável de forma que não tivemos que almoçar fora, pois todos os dias fazíamos a nossa própria comida, principalmente a base de peixe, camarões e salada, uma delícia. Logo que chegamos fomos procurar por uma excursão à grande barreira de corais. Depois de pesquisar algumas agências decidimos por um barco que nos parecia grande e confortável. Marcamos nossa ida para a manhã seguinte. Nós somos um casal bastante experiente nesse tipo de viagem de barco, pois já fizemos viagens semelhantes em Istanbul, na Grécia, Argentina, Colômbia, Venezuela e várias partes do Brasil. A nossa impressão da grande barreira de corais foi fortemente influenciada pela lembrança que nos deixou a viagem.

O barco

O barco

O barco era grande e confortável, mas ficou pequeno para as 100 pessoas que levava. Tinha apenas 4 banheiros unissex, e dois diminutos quartos para trocar roupa. Durante a viagem até a barreira de corais, que durou um pouco mais que 2 horas, pelos menos 30% dos passageiros passaram mal, pois o mar estava bastante agitado e o barco o percorria velozmente, provocando baques constantes contras as ondas. Não nos advertiram sobre esse problema quando compramos o passeio. A tripulação não sabia como lidar com o problema. Eles haviam disponibilizado um comprimido ante-enjoo no início da viagem e advertiam quem estava passando muito mal que deveria sair para fora do barco, mas havia pessoas muito mal, que não conseguiam se levantar, e a tripulação insistia para que saíssem, de forma às vezes rude, pouco educada mesmo. Em minha vida nunca havia me deparado com pessoas no comando de uma situação tão autoritárias e rudes. Havia muitos chineses e filipinos no barco que não entendiam bem o que a tripulação lhes falava. A tripulação colocava todos no sol e não providenciava nada para hidrata-los, não parecendo conhecer os cuidados médicos básicos nestes casos. Quando finalmente chegamos ao local onde realizaríamos o primeiro mergulho, nos deparamos com outro problema. Mais de 70% do barco havia optado pelo snorkel e apenas 30% pelo mergulho. No entanto, quase toda a tripulação se envolveu com as pessoas que iriam mergulhar, deixando os que iriam praticar snorkelling a ver navios. Pararam o barco num local mais fundo, próprio para o mergulho. O mar estava bastante agitado de forma que muitas pessoas desistiram de fazer qualquer atividade que envolvesse nadar. Na hora de voltar ao barco era outro sofrimento, pois a traseira do barco foi dividida, sendo a esquerda reservada para os mergulhadores e a direita para quem fazia snorkel. Mas com o mar agitado, ficava difícil obedecer a essa regra quando voltávamos para o barco, de modo que a primeira parada se tornou um suplício para a maioria dos viajantes, que não conseguiram passar muito tempo no mar para ver as belezas da vida subaquática que tinha sido amplamente anunciadas em televisores colocados no interior do barco.

Curtindo o sol da tarde

Curtindo o sol da tarde

Após esse frustrado mergulho da manhã foi nos servido o almoço, bastante medíocre. Depois do almoço paramos em outro ponto para mergulho e o mar estava menos bravio e resolvi não usar a roupa de neoprene que nós havia sido recomendada na primeira parada. Aí, sim, consegui passar mais tempo na água, no limite da barreira de corais, que percorria em um sentido e no outro. É enorme o número e a variedade de peixes, alguns em cardume, algo muito bonito. Há peixes bem grandes, que ficam mais no fundo. A barreira começa como uma parede de uns 10 metros de profundidade, e a partir daí fica rasa, com um metro. Há corais para todos os lados, muito variados, uma verdadeira floresta submarina. No seu limite, vários peixes buscam alimentos e compõe uma viva paisagem submarina.

Depois de umas duas horas dentro d’água voltei para o barco, cansado e feliz por finalmente haver obtido a recompensa pelos 130 dólares pagos pela viagem. Voltamos para a casa num mar mais tranquilo, curtindo o sol da tarde.

Kuranda

Kuranda

Próximo de Cairns tem ainda a floresta tropical mais antiga do planeta, dos tempos do Gondwana, o super continente que se formou a partir da Pangeia, pelas porções de terra do hemisfério sul: a América do Sul, África, Antártica, Índia e Oceania. Esta parte da Austrália não teria sofrido a última glaciação e por isso abriga a floresta tropical mais antiga. Cairns está a 16 graus de latitude sul, a mesma latitude de Porto Seguro. Nós estivemos em Kuranda, que abriga uma dessas florestas. A região fica perto do litoral e há uma bonita vista do mar, depois de subirmos na estrada por uns 20 quilômetros.

Por do Sol em Port Douglas

Por do Sol em Port Douglas

Depois de 3 dias em Cairns, fomos para Port Douglas, uns 60 quilômetros ao norte. Escolhemos Port Douglas por indicação de James, um australiano de Melbourne que hospedamos por ocasião da copa do mundo de 2014. A cidade é pequena, mas muito bonita. Está próxima de um rio, que forma um belo estuário. Há um belo jardim cercado por árvores e coqueiros, que fica justamente no final da foz do rio e no começo do mar, onde podíamos apreciar o por do sol. A praia de Port Douglas é o ponto forte da cidade. Com mais de 4 quilômetros, águas calmas e quentes, areia fina, é uma delícia para ser percorrida a pé. Estivemos na cidade na época de férias escolares australianas, de modo que havia bastante gente. No entanto, as pessoas se concentram nos primeiros 300 metros da praia, onde ficam as balizas dos salva-vidas. O restante da praia é um enorme e delicioso vazio (foto 8).

Praia vazia

Praia vazia

Em Port Douglas nos sentimos em casa, como numa praia do nordeste, com uma preguiça boa que nos convidava a um bom chope, que tomávamos no iate clube local, junto ao rio, onde avistávamos uma placa advertindo contra o perigo dos crocodilos. Vida boa é isso.

Iate clube local

Iate clube local

Trip Global: Melbourne e a Great Ocean Road

Há uma antiga disputa entre Sydney e Melbourne para saber qual é a melhor cidade da Austrália. Os amantes da natureza com certeza elegerão Sydney com a sua maravilhosa baia, lindas praias que podem ser alcançadas por meio de uma curta viagem de ferry boat, e um conjunto de parques naturais circundando toda a cidade. Os amantes da cultura e da vida urbana dirão que Melbourne ultrapassa todas as expectativas, com a música pulsando em cada esquina, com muitas atrações em todos os teatros, e com uma agitação por todo o centro, pequeno o suficiente para ser percorrido à pé.

Sala de concertos

Sala de concertos

Foi nesse contexto, já conhecendo Sydney, que chegamos a Melbourne, cheios de expectativa. Logo no segundo dia fomos a um concerto da orquestra sinfônica de Sydney, sob a regência Benjamin Northey, um jovem australiano com muita energia, e com presença da solista chinesa, Xuefei Yang, uma violonista que tocou duas peças: uma contemporânea de seu conterrâneo, Tan Dun, e o Concerto de Aranjuez, do espanhol Joaquín Rodrigo. A sala de concertos de Melbourne é mais tradicional que a de Sydney, mas nem por isso a acústica deixa a desejar. O concerto de Aranjuez é uma das peças mais conhecidas para violão e orquestra, e foi executado com mestria pela violonista chinesa. É interessante que o recital começou com uma peça bastante conhecida de Debussy, L’après-midi d’un faune, e terminou com a não tão conhecida Ibéria, que faz parte dos seus últimos trabalhos orquestrais, chamados Images pour orchestre. Na Ibéria o músico francês lança mão de motivos espanhóis para compor uma bela peça. É interessante que Debussy visitou a Espanha uma única vez e não ficou mais que um dia, de modo que todo o desenho espanhol é fruto da pura imaginação do compositor francês.

Tanto aqui como que fomos em Sydney, tivemos uma estrutura no concerto como um todo que conduz o ouvinte por entre as obras, levando-o a curtir certas emoções em crescendo, mas sempre com o mesmo padrão musical. Acho muito mais interessante uma estrutura desse tipo, que procura estabelecer coerência entre as várias peças executadas e que não produz quebras bruscas na audição, do que a forma como a Orquestra Filarmônica de Minas Gerias tem nos apresentado normalmente no Palácio das Artes. Nesta última, não há uma sequência lógica no concerto e uma peça de Mozart é seguida, por exemplo, por uma de Mahler. Tudo bem que todas as duas são excelentes, mas quando colocadas lado a lado num mesmo concerto não formam um todo coerente, prejudicando de certa forma a audição da peça de Mahler e desmanchando, por assim dizer, a impressão deixada pela peça de Mozart.

Bennetts Lane

Bennetts Lane

No noite seguinte foi a vez de ouvirmos Rita Satch, uma cantora de blue e jazz local, acompanhada por um trio formado por piano, baixo e bateria, num típico club de jazz da cidade, o Bennetts Lane. Excelente cantora, com um pianista primoroso, Gideon Preiss, e os outros dois músicos muito bons. Executou muitas de suas próprias composições e algumas músicas de compositores contemporâneos australianos. Deixou em nós uma viva impressão de uma voz macia e gostosa, num clima super aconchegante.

Na terceira noite fui conhecer o violonista Doug de Vries, que também é professor na Universidade de Melbourne e divulgador da música brasileira. Cheguei a um bar que fica pertinho do centro, na região chamada Fritzroy, e eles já estavam tocando. Uma formação simples – violão, violino e pandeiro – mas bem inusitada para execução do chorinho, que era o principal tema da apresentação. Os três músicos ficam num canto do bar, tocando bem a vontade, mas executam uma música de alta qualidade, com o violonista e o violinista se alternando em solos precisos, as vezes executados simultaneamente. Eu havia contatado Doug antes desse show, para lhe dar o meu CD Trip Lunar. Logo que cheguei, cumprimentei-lhe e ele disse a um rapaz que estava próximo que viesse conversar comigo. Para minha surpresa, era um australiano, de nome Corey, falando um bom português e também violonista de choro, só que especialista em violão de 7 cordas. Esteve no Rio de Janeiro este ano, em janeiro e fevereiro, e adora o país. Ao final do primeiro set, Doug de Vries se juntou a nós e, agora em inglês, conversamos muito sobre música, particularmente a brasileira, principalmente  sobre os vários violonistas que sempre colocaram o Brasil em sintonia com a música popular mundial, produzindo uma música original e de qualidade. Doug conhece Yamandu Costa, com que já teve oportunidade de tocar e o qual expressa bem essa qualidade do violonista brasileiro. Quando os músicos reiniciaram, executaram uma música de Milton Nascimento, bem para abrir o clima para uma canja minha. Muito pouco a vontade, ante a qualidade do violão de Doug, executei duas das minhas músicas, Trip Lunar e Claro Feitiço, e ainda contei com um improviso do violinista.

Centro de Melbourne

Centro de Melbourne

Pois é, dá para sentir por esse relato o quanto Melbourne respira música e arte. A cidade tem o centro na forma de um retângulo, formado pela La Trobe Street, Spring Street, Flinders Street e a Harbour Esplanade, por entre as quais circula o bonde City Circle, que é o mais antigo e de graça. A medida que os pontos vão se sucedendo, uma voz masculina vai anunciando as inúmeras atrações em cada ponto. Dentro desse retângulo circulam, pelas várias avenidas, os mais variados bondes, alguns modernos, outros nem tanto. É a quarta maior rede de bondes circulando em uma única cidade, com 244 quilômetros de extensão. Desse retângulo eles partem para pontos distantes no subúrbio de Melbourne. Como toda cidade australiana, o subúrbio é constituído por casas com grandes jardins. O centro de Melbourne mistura prédios antigos com outros ultra modernos. Belo Horizonte já teve um razoável rede de bondes, que cruzavam as principais ruas, com a Platina, a Niquelina, a Padre Eustáquio, etc. Por que foram tirados? Por que não retomamos com bondes modernos, como uma opção de transporte público?

Victoria Market

Victoria Market

Ficamos num apart hotel a um situado a quarteirão de um ponto do bonde City Circle e a dois quarteirões do Victoria Market, que é uma mercado enorme. O setor de frutas e verduras tem inúmeros feirantes que montam as bancas todos os dias, com exceção de segunda e quarta. Já a parte de carnes, peixes, queijos, azeitonas, etc, lembra um pouco o Mercado Central de Belo Horizonte, mas com uma variedade de produtos muito maior. Compramos peixes, camarões, verduras e frutas para prepararmos almoços deliciosos.

Federation Square

Federation Square

No dia em que chegamos percorremos o trajeto do bonde City Circle. Descemos na Federation Square, de certa forma uma praça que atrai pelos seus vários museus, todos em desenho ultra moderno, e por estar perto do rio Yarra, que tem todo o charme de inúmeros restaurantes em suas margens. Na Federation Square fomos ao Ian Potter Centre, que tem uma boa coleção da arte aborígene no seu primeiro andar. Essa arte é quase sempre baseada em sonhos e cada sonho conta uma história. Há alguns padrões que sempre se repetem, como o uso de pontos de círculos feitos a partir desses pontos. O segundo e terceiro andar são dedicados a artistas australianos dos séculos XIX e XX.

Curiosamente, metade de um andar faz parte de uma coleção privada que foi doada ao museu pelo seu dono, Joseph Brown, em 2004. Brown nasceu na Polônia em 1918 e migrou para a Austrália em 1933, quando tinha apenas 15 anos, tendo se fixado em Melbourne. Inicialmente dedicou-se a pintura, mas após retornar da II Guerra Mundial foi se envolvendo cada vez mais com a indústria de moda, onde fez fortuna e se tornou um colecionador de arte e patrocinador de artistas australianos. Sua coleção pessoal, cuja maioria das grandes obras está exposta, revela um pouco de tudo o que aconteceu em termos de pintura na Austrália durante o século XX.

Rio Yarra

Rio Yarra

Quase todo rio enfeita enormemente a cidade que banha, principalmente nos países estrangeiros. No Brasil isso nem sempre acontece, pois os rios foram transformados em esgotos a céu aberto e provocam inundações nos tempos de chuva. Com Melbourne não é diferente. O Rio Yarra banha o lado sul da cidade, e do outro lado de sua margem ficam os modernos prédios do centro financeiro. Um desses é o Eureka, um edifício ultra moderno de 88 andares com uma vista magnífica de toda Melbourne.

Ponte Sandridge

Ponte Sandridge

Ao longo de suas margens há um belo passeio, com bares e restaurantes em meio a bonitos edifícios, como o do Centro de Convenções e Exibições de Melbourne, um enorme prédio para abrigar grandes convenções e feiras; e modernas pontes exclusivas para pedestres, dentre as quais destacamos a Ponte Sandridge, construída originalmente em 1853 para abrigar a estrada de ferro e totalmente reformulada em 2006, tornando-se exclusiva de pedestres e ciclistas e exibindo esculturas artísticas em toda sua extensão. Nesta ponte há um registro de todos os migrantes que chegaram a Melbourne, de todas as partes do mundo, inclusive do Brasil, com detalhes sobre a época em que ocorreram as migrações, de onde vieram os migrantes, o motivo da migração e o número de migrantes. Cada país é representado num quadro de vidro, e o Brasil curiosamente exibe o período entre 1970 e 1980 como um dos que contribuíram com migrantes por causa da perseguição política. Vieram do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia.

Vista do Eureka

Vista do Eureka

Em uma das nossas tardes em Melbourne fomos visitar Peter Fensham, famoso professor da Universidade de Monash, que fica no subúrbio de Melbourne. Conheci Peter quando o convidei para dar conferência na Reunião Anual da SBQ, lá pelo começo dos anos 2000, quando eu era diretor de Ensino da Sociedade Brasileira de Química. Ele passou 15 dias comigo no Brasil e desde então nos tornamos amigos, nos encontrando nas conferências de Science Education pela Europa e Estados Unidos.

Eu, Peter e Christina

Eu, Peter e Christina

Pegamos o bonde 48 no ponto 4, Queens St. & Collins St., para North Balwyn e descemos depois 40 minutos no ponto 32, Kew Junction, depois de deixar o centro da cidade para trás, passarmos por dois bairros inteiros e chegarmos a um terceiro, com grandes casas vitorianas. No caminho o trem foi invadido por colegiais, ora do sexo masculino, ora do sexo feminino, pois eram três e meia da tarde, horário de fim de escola. Curiosamente, várias escolas privadas mantêm ainda escolas exclusivamente para rapazes ou moças, como acontecia no Brasil até 1960. Fensham nos explicou que nesses bairros habitam pessoas de classe média alta, que fazem questão de pagar caro a uma escola privada porque seus filhos, neste caso, vão conviver unicamente com a elite que assumirá o comando de empresas e do estado. Já os chineses ricos, que não fazem questão disso mas da qualidade acadêmica das escolas, procuram bairros em que as escolas públicas são boas, elevando muito o preço das casas.

Jardim Botânico

Jardim Botânico

Peter, que já está com 86 anos, mora unicamente com a mulher, Christina, que há muito eu queria conhecer, pois ele sempre falava vivamente dela quando encontrávamos. Foi um grande prazer ir a casa deles, dar umas voltas por um parque da região e depois jantar a deliciosa comida preparada pelo Peter, revivendo histórias e personagens da Science Education.

Fomos também ao Jardim Botânico de Melbourne, que fica numa bairro mais próxima da cidade, em meio a um enorme parque denominado Kings Domain. É um Jardim Botânico lindíssimo, com uma variedade de plantas impressionante. Tivemos oportunidade de sentir a fragrância de vários tipos de eucaliptos e algumas flores que não sabemos mais o nome. Os eucaliptos são nativos da Austrália e sua variedade é enorme. Alguns tem um aroma das folhas particularmente agradável, lembrando frutos cítricos.

Falésias, ilhas

Falésias, ilhas

Por último, alugamos um carro e viajamos para a Great Ocean Road, cuja principal atração está a 230 Km de Melbourne. Uns 80 km depois de Melbourne pega-se a estrada que vai serpenteando pelos litoral, proporcionando belas paisagens. Há muitas montanhas, com matas virgens, ladeando um mar de um azul profundo e ondas bravias. Vez por outro as montanhas dão lugares a praias bem formadas, com ondas regulares, ideais para a prática de surf. Vimos surfistas em algumas delas. Depois de uns 100 quilômetros por essa estrada maravilhosa, é hora de abandonarmos o mar e subir por uma estrada ainda mais bonita, que fica no meio de uma densa floresta.

Falésias, pontes

Falésias, pontes

Ao final dessa estrada, chega-se novamente no mar, particularmente bravio, com falésias muito altas de arenito, que vão sendo esculpidas pela água do mar, ventos e chuva, formando inicialmente ilhas. Quando estas falésias se separam do continente, vão sendo escavadas pelas ondas e formam pontes; depois de algum tempo, essas pontes cedem, formando curiosas montanhas de areia dentro do mar. Essa região, onde há uma grande extensão dessas formações, é conhecida como Doze Apóstolos. É algo totalmente inusitado, as rochas de arenito vão sendo comidas a uma proporção de 2 centímetros por ano.

Fizemos a viagem até os Doze Apóstolos na agradável companhia de André, filho do meu primo Frederico, que fez essa foto de nós dois. André está a três meses em Melbourne, se adaptando e aprendendo inglês para fazer um mestrado em Arqueologia. André é formado em História mas trabalhou no Brasil numa empresa de licenciamento ambiental. Agora o país assinou uma carta da UNESCO sobre licenciamento ambiental que prevê que deverão ser levantados também dados arqueológicos nos projetos de licenciamento, o que abre um enorme campo para a arqueologia no país.

Doze Apóstolos

Doze Apóstolos

Para terminar, cabe comentar que o centro de Melbourne transborda estudantes, principalmente asiáticos, o que mostra o vigor da educação superior na Austrália, que já se especializou para vender um serviço de auto nível para a o mundo. Isto é algo que devíamos pensar em fazer, pelo menos para os nossos vizinhos de América da Sul e para os parceiros da África, em lugar de dar bolsas aos estudantes de graduação para fazer turismo no mundo, o que aqui eu pude comprovar através do relato de alguns brasileiros e australianos.

Trip Global: Brisbane, Austrália

Chegamos a Brisbane num final de tarde ensolarado, fazia uma friozinho de primavera, típico dessa região que está numa latitude semelhante à de Florianópolis. Brisbane é uma cidade relativamente nova, apesar da história da região remontar ao navegador britânico Matthew Flinders, que com sua obra Uma viagem à Terra Australis (1814) popularizou o nome Austrália. Foi em 1925 que mais de 20 pequenos municípios foram reunidos para formar a cidade de Brisbane, desde então capital do estado de Queensland, em cujo oceano situa-se  a famosa Grande Barreira de Corais, com seus 2.900 km de extensão e largura variando de 70 a 300 km.

Ilha Stradbroke

Ilha Stradbroke

Em Brisbane iríamos ficar hospedados na casa da nossa amiga Lília, mineira de Belo Horizonte que trabalha como pesquisadora na Universidade de Queensland. Pegamos o trem no aeroporto, descemos na Fortitude Valley e mudamos para a linha Springfield, descendo na Estação Toowong, pertinho da casa de Lília, que veio nos buscar de carro. Ela mora, junto com o namorado, Paul, numa casa de madeira, num bairro muito interessante, pois tem-se a nítida impressão, olhando para o quintal de sua casa, que se está no campo, tamanho o número de árvores que se vê e que não deixam à vista as casas do bairro. Fomos recebidos com um delicioso jantar, que começou nos camarões, passou por aspargos, carne grelhada e salada de beterraba temperada à moda indiana, tudo regado ao vinho tinto australiano e preparado com primor pelo cientista Paul.

Brown Lake

Brown Lake

No dia seguinte acordamos cedo para ir a ilha Stradbroke, que fica a uma hora de ferry de um porto, que está a uns 30 quilômetros do centro de Brisbane. Essa ilha é maravilhosa, e tem praias extensas, mas estava um pouco frio, apesar do sol forte. Passeamos a beira mar, começando numa praia e subindo no alto de um penhasco que vai ziguezagueando pelo oceano, formando gargantas muito bonitas, até se acabar numa outra praia. Aí ficamos por um tempo ao sol, sem coragem de compartilhar com os australianos a água, que estava fria. Depois disso fomos a um lago de cor escura, chamado de Brown Lake. Lília bem que nos convidou a entrar na água, mas não tivemos coragem devido ao frio.

À noite foi a vez de Regina nos brindar com um Risoto de cogumelos, que por sinal aqui na Austrália são maravilhosos, com uma variedade espantosa e sabores muito especiais. No dia seguinte Lília nos deixou às 9:00 hs no Lone Pine Koala Sanctuary, onde tivemos a oportunidade de conhecer, pela primeira vez, a vasta fauna australiana, que inclui várias espécies de marsupiais, como os cangurus e coalas, ornitorrinco, um bicho chamado Tasmanian Devil que se parecer com um enorme rato, um enorme morcego e muitas cacatuas, uma espécie de papagaio com as mais variadas formas e cores. As mais falantes, que nos saudaram com um “good morning” e se despediram dizendo “goodbye”, são as brancas de penacho amarelo, bem maiores que um papagaio. É curioso que os coalas são de uma preguiça de fazer inveja ao bicho que tem esse nome. Dormem abraçados  a um galho de eucalipto praticamente o dia inteiro – 19 horas por dia – porque necessitam um tempo enorme para digerir as folhas de eucalipto, sua refeição.

À tarde nos encontramos com Lucas, filho dos nossos amigos Valdemar e Sandra, que está em Brisbane para um intercâmbio. Gostando muito, até da escola, que diz ser bem mais divertida e diversificada da que frequentava no Brasil. Nosso país está uns 40 anos atrasados em termos de educação, em todos os níveis. O ensino público em geral é um desastre porque, entre outras coisas, não se paga um salário ao menos razoável ao professor e não se tem um padrão de construção de escola. Mas mesmo as escolas particulares primam pelo ensino baseado na transmissão-recepção de verdades prontas e acabadas, quando a ciência, as letras, as artes e as humanidades já deixaram para trás esse padrão. Hoje, nos países de primeiro mundo, como a Austrália, investe-se num ensino por investigação, em que os padrões e princípios da investigação científica se sobrepõe ao ensino puro e simples de verdades imutáveis.

Piscina pública cheia de jovens

Piscina pública cheia de jovens

Passeamos pelo centro e pelo South Bank, conhecendo seus pontos turísticos, como a piscina pública, que em dias de calor fica lotada de gente. Essas piscinas, que viraram moda na Austrália, são completamente abertas, a serviço de qualquer pessoa que queira usá-la. Ficam cheias de jovens. Brisbane é uma cidade moderna, com um bonito rio que corta o centro e o divide entre o South Bank e o centro financeiro. É a maior área urbana da Austrália, bastante espalhada, embora a população total da área metropolitana não passe de 1,8 milhões. A maioria dos bairros são como o Toowong, onde mora a Lília, que mais parece uma zona rural.

 

Rio divisor

Rio divisor

Ao final do dia tomamos uns bons chopes a beira do rio, num bar e restaurante alemão, juntos com a Lília e o Paul. Quando já era noite, antes de voltarmos para casa, nos levaram a uma montanha que tem uma vista espetacular da cidade. Lília considera Brisbane sua casa e não a troca por nada nesta vida. Lucas nos deu a mesma impressão. Realmente uma bela cidade.

Chopes a beira do rio

Chopes a beira do rio

 

Trip Global: Sydney

A Austrália é um verdadeiro continente, cercado de oceanos por todos os lados, com apenas 26 milhões de habitantes. Sydney é a principal cidade e foi também a primeira. O Capitão James Cook, da Marinha Britânica, explorou as terras australianas em 1770, depois de passar pelo Rio de Janeiro e a Cidade do Cabo. Em 1787 o governo britânico decidiu começar a colonização desse vasto continente, mandando a primeiro frota com esse fim. De acordo com Robert Huges, no seu livro que dá voz aos condenados que colonizaram esse vasto país, “Austrália era uma cloaca, invisível, seus conteúdos sujos e inomináveis.”

Edifícios parecem flutuar na baia

Edifícios parecem flutuar na baia

É curioso que um país que tenha surgido da colonização de condenados por crimes diversos tenha hoje o segundo IDH do mundo, com uma excelente qualidade de vida e uma tranquilidade para se viver a toda prova.

Sydney Harbor Bridge

Sydney Harbor Bridge

O que mais impressiona em Sydney é justamente a baia, que coincide com a foz do Rio Parramatta, que traz um azul todo especial para a cidade, que tem, por todos os lados, pequenos portos para os ferrys. Os grandes e belos edifícios comerciais parecem flutuar na baia, que é atravessada pela lendária Sydney Harbor Bridge. Parece que estamos numa ilha, tamanha a presença do mar tranquilo da baia, que penetra por todos os poros da cidade. Sydney é também a mais multicultural cidade da Austrália, com asiáticos de todas as nacionalidades e aborígenas se misturando aos australianos descendentes dos ingleses. Logo que chegamos fomos atraídos para o principal porto desses ferrys, o Circular Quay, que no seu lado direito exibe a Ópera House de Sydney, um belo edifício que parece um barco dependendo do ângulo que se olha.

Fomos a um concerto clássico na Ópera, em que a orquestra Sinfônica de Sydney acompanhou Stephen Hough ao piano, executando um lindo piano concerto do Checo Antonín Dvořák. Eu nunca tinha ouvido nada parecido em termos de acústica. Uma clareza no som, uma envolvência a toda prova, houve-se tudo com muita fineza. A sala de concerto está distribuída em torno do palco, como num teatro de arena, e o teto por sobre a orquestra tem uma altura considerável. Chegamos um pouco mais cedo e podemos saborear um espumante enquanto olhávamos para beleza do cais, com a cidade ao fundo. No lado esquerdo há um prédio antigo ligado a uma construção moderna, onde localiza-se o Museu de Arte Contemporânea, com vários quadros e instalações de Annette Messager, uma artista plástica francesa, fazendo parte da exibição temporária.

Instalação de Annette Messager

Instalação de Annette Messager

Também em Sydney encontramos vários Pubs bem no estilo inglês, com cadeiras confortáveis e uma boa cerveja na pressão, que sai de uma imensa barra contendo vários tipos de cerveja diferentes. Os pubs são inigualáveis quando se trata de beber uma boa cerveja confortavelmente sentado numa bela poltrona. Belo Horizonte tem um bom pub no CCCP, que fica no antigo Savassi Cine Clube, mas ainda sem o conforto dos seus similares ingleses, australianos ou irlandeses.

Blue Mountains

Blue Mountains

No nosso segundo dia em Sydney fizemos uma excursão às Blue Mountains, que mais parecem um grande desfiladeiro e que ao longe ficam realmente azuis. O nosso guia e motorista relatou um fato interessante a cerca da Austrália: antes da chegada dos ingleses os Holandeses já tinham andado por essas terras. Realmente checamos e verificamos que o navegador holandês Willem Janszoon andou pelo litoral oeste e norte do continente australiano, batizado à época de “Nova Holanda”, mas não houve qualquer tentativa de colonização. As Blues Mountains em verdade nos decepcionaram, apesar de ser belo o lugar. Na volta fomos levados ao local onde foram construídos os estádios e a vila olímpica da Olimpíada de Sydney, que aconteceu em 2000. Dali embarcamos num ferry com destino ao Circular Quay e essa foi nossa primeira viagem pela Baia, realmente muito bonita. Toda a paisagem está cheia de pequenas colinas que acabam no mar, com casas muito amplas ao longo dessas colinas. O sol caiu quando ainda estávamos no barco e chegamos ao Circular Quay em Sydney já com noite feita. É interessante porque todos os dias fazíamos o trajeto pela George Street, que liga o local onde estávamos hospedados, perto da Central Station, ao Circular Quay.

George Street

George Street

No final, a George Street está cheia de casas típicas do bairro histórico de Sydney, chamado Rocks. As simples e boas casas hoje abrigam o comércio local. Pela George Street também passa-se por uma série de construções tipicamente britânicas, como o Town Hall, sede do governo municipal. A George Street é de longe a rua mais movimentada de Sydney, com milhares de australianos se misturando aos milhares de asiáticos dessa cidade, seja nos passeios e semáforos, seja  nos inúmeros bares e pubs que no happy hour abrigam uma alegre e falante população, que sintetiza um pouco o que os mais de 4 milhões de habitantes dessa que é a maior cidade da Austrália, falam e fazem.

Darling Harbour

Darling Harbour

No dia seguinte passeamos pelo Darling Harbour, outra entrada da baia de Sydney, que é uma verdadeira festa. Atravessada por uma grande ponte reservada aos pedestres, são inúmeros bares e restaurantes em meio ao Museu Naval, o Aquário de Sydney, o Museu de Cera da Madame Tussauds e muitas outras atrações. As águas da baia refletem esplendorosas o azul do céu e a cidade brilha em meio ao esplendor. Depois do almoço atravessamos a pé a famosa Sydney Harbour Bridge, com suas duas grandes torres sustentando uma enorme estrutura de aço. A medida que caminhávamos íamos tendo diferentes visões da baia, com uma linda vista da Ópera House. Para voltar tomamos o trem no Milsons Point, que corresponde a parte norte da baia, imediatamente depois da ponte. O transporte público em Sydney se faz por quatro vias principais: são trens modernos, com dois andares, que convergem para a Estação Central, perto de onde ficamos hospedados; ferrys, que são um meio de transporte muito prático tendo em vista a situação geográfica de Sydney, com inúmeras entradas da baia por todos os lados; os ônibus; e, finalmente, as bicicletas. Na George Street há um ônibus gratuito, o 555, que faz exatamente o trajeto de fazíamos a pé diariamente.

Opera House vista da ponte

Opera House vista da ponte

Fomos ainda a uma praia, Manly, que junto com a Bondi Beach sintetiza bem o espírito jovem do habitante de Sydney. Chegamos a Manly depois de percorrer toda a baia de Sydney a partir do Circular Quay, passar ao largo da entrada do oceano e estacionar, ainda dentro da baia, num cais que fica a uns 200 metros da praia, em mar aberto. Apesar de ser uma cidade essencialmente ligada ao mar, não há praias centrais em Sydney, pois essas estão localizadas já fora da baia, no oceano.

Praia de Manly

Praia de Manly

Mas quando você chega numa dessas praias, entende bem porque o surf é uma prática disseminada entre os todos, jovens, maduros e velhos. São centenas deles, e também delas, no mar, vestidos com roupas térmicas, a procura das melhores ondas. Nessa época em que a temperatura em Sydney ainda exige o uso do casaco de couro, são as únicas pessoas ao mar.

No último dia nosso em Sydney, um domingo, fomos passear na casa de um casal australiano multicultural (Tom é australiano e Ayling indonésia), que conhecemos no passeio que havíamos feito à Ha-Long Bay, no Vietnã (vide). Eles são super simpáticos e nos convidaram a visita-los em sua casa, que fica num subúrbio de Sydney. Pegamos o trem na Estação Central e depois de cruzar a baia pela Sydney Harbour Bridge ainda passamos por mais de 10 estações. Depois de uma hora no trem desembarcamos numa típica cidadezinha do interior, com casas grandes que se misturam às árvores do campo, numa paisagem quase rural.

Passeio com casal australiano

Passeio com casal australiano

Tom foi nos buscar na estação e logo chegamos a sua casa, um ampla habitação que aproveita o declive do terreno para ter dois andares em algumas de suas partes. Almoçamos na área externa, onde tínhamos uma vista de enormes árvores de várias espécies de eucaliptos, que são as árvores mais comum na Austrália. O jardim estava bem cuidado, com diferentes flores e frutos. Ayling trabalha na University of Technology, Sydney, com programas de inglês para estrangeiros, tendo inclusive recebido vários estudantes brasileiros do Ciências sem Fronteiras. Tom trabalha na Escola de Medicina da Universidade de Sydney, que fica perto de sua casa. Ayling trabalha num campus que fica muito próximo ao lugar onde ficamos hospedados. Ela falou admirada de um prédio moderno que está sendo finalizado neste campus, e que acabamos por encontrar e fotografar. Depois do almoço eles nos levaram a passear por um parque nacional, que circunda toda Sydney pelo lado norte, numa imensa área. Um guarda voluntário prometeu que veríamos uma família de cangurus, mas não foi dessa vez. Passeamos por entre perus australianos, bem bonitos, com interessante colar vermelho. E finalmente chegamos a um pântano longínquo, bem preservado, que liga-se ao mar de alguma forma, no final de uma baia típica como a de Sydney. Descobrimos que esse é a típica formação de litoral neste estado de Nova Gales do Sul. Sydney, a capital do estado, já foi uma cidade industrial e a poluição de certas partes da baia era uma constante há mais de 20 anos. Desde então, as indústrias poluidoras mudaram para a China e os países do sudeste asiático, o que contribuiu para que a baia pudesse ser despoluída, depois de um programa de muitos anos. Sydney ficou como um exemplo de uma esparramada cidade de 4 milhões de habitantes que nem por isso despreza o bom convívio entre seus habitantes e desses com a natureza.