Uma trip musical

por Marcelo Dolabela

Há, na história recente da música brasileira, uma geração, ainda não estudada, que, erroneamente, é considerada “perdida”. Uma geração que surgiu e teve seu primeiro momento entre meados da década de 1970 e os descaminhos da Era-Collor.

Pós-Tropicalista, pós-Clube da Esquina, paralela e, às vezes, confundida com o Rock Brasil’80 e as vanguardas capitaneadas pela Lira Paulistana, e pré-massificação do canto de cisne da Era do Vinil (Neo-Sertanejo, Axé-Music, Pagode e outros subgêneros), esta geração, grosso modo, foi uma tradução da geração “College” – depois “Indie” – da música pop norte-americana.

Isto é, formada, quase que na sua maioria, por jovens universitários, bem informados e sem pretensões de profissionalização artística, fez a música que queria, acreditava e curtia, sem os mandos e desmandos da indústria pop-fonográfica.

O Grande Ah!

O Grande Ah!

Eduardo Fleury Mortimer, o “Duzão”, é um dos bons exemplos desta geração. De militante nas lutas do movimento estudantil contra a ditadura militar a professor universitário, trama sua música nas brechas, nas frestas e nos insights de sua produção acadêmica.

Dois discos em 25 anos – um LP, em 1988, com O Grande Ah!, e um CD, com o grupo Mariantivel, de 1997 – parecem pouco. Não estabelecem, dentro dos padrões da indústria, uma discografia. Mas é aí que a obra se faz mais presente e vital.

Esta geração tem uma característica singular: não lança discos “de carreira”, lança “songbooks”, discos que fazem o “clique” que o poeta João Cabral de Melo Neto dizia ouvir quando um texto / obra estava pronto.

O que estabelece não um movimento, mas um momento que vai além de um determinado período. Assim, se antes, o grande parceiro musical de Duzão era Marcos Pimenta; hoje, a viagem continua, com uma segunda geração, tendo, como músicos, os filhos: Lucas e Ivan Mortimer, de Duzão, e Rafael Pimenta, de Marquinhos, que fazem a indústria sonora – guitarra, contrabaixo e bateria –, com maestria e inventividade.

Se o LP foi um álbum-performance, principalmente pelas participações dos vocalistas Letícia Coura e Rodrigo Rocha; se o CD foi um álbum-instrumental; este Trip Lunar é um verdadeiro álbum-canção. Onde, arranjos, instrumentais, vozes e produção concorrem para realçar melodias que sobrevivem no violão.

Mais do que parceiro de algumas faixas, sou testemunho deste repertório. Vi, ouvi e vivi estas canções sendo compostas, ensaiadas e estabelecidas. Em shows e eventos no memorável DCE-UFMG-Cultural e no festival WoodIcex. É mais do que positivo ver que algumas músicas, com o passar dos anos, são como livros que param em pé na estante, que tomam o ouvido de assalto com um frescor e rumor dos dias atuais. Músicas que reafirmam que esta geração “não (se) repete, apesar do bis”, como diria Marcel Duchamp. Que só vem à tona para mostrar novos combustíveis e novíssimas labaredas.

Sobre Trip Lunar

triplunar_capaA gravação do disco contou com músicos proeminentes da nova cena musical de Belo Horizonte: Yuri Vellasco e Ygor Rajão (Graveola e o Lixo Polifônico), Henrique Staino e João Machala (Iconili), Rafael Pimenta, Ivan Mortimer e Alexandre Andrés, além do experiente saxofonista e compositor Chico Amaral. Para interpretar as canções, Duzão convidou José Luis Braga, Ladston do Nascimento e Leopoldina Azevedo, além dos amigos Marcos Pimenta e Simone Wajnman. Duzão compartilha as composições com o escritor Marcelo Dolabela, autor da maioria das letras do disco e parceiro desde os anos 80, quando eram membros da banda O Grande Ah!. Produzido por Thiakov, outro nome recorrente na cena da capital, “Trip Lunar” foi gravado no estúdio situado na própria casa de Duzão pelo seu filho, o técnico de som e produtor Lucas Mortimer, e foi mixado e masterizado pelo pernambucano Kiko Klaus.

Sobre Duzão Mortimer

Duzão Mortimer @ NYC - Foto por Júnia Mortimer

Duzão Mortimer @ NYC – Foto por Júnia Mortimer

Renomado pesquisador e professor universitário, com livros premiados no Brasil e no exterior na área de educação e ciências, Eduardo Fleury Mortimer assume o nome artístico de Duzão Mortimer e embarca em sua “Trip Lunar”.

Duzão Mortimer construiu sua carreira artística em torno do circuito musical universitário de Belo Horizonte e Minas Gerais. No início dos anos 80 com a “ Alegria Blues Band” e depois com “O Grande Ah!”, participou de vários festivais e festas estudantis, culminando com o lançamento do disco “1989”. Na década de 90 participou do Mariantivel, com a qual gravou um disco em 1997. Nos anos 2000, re-lançou “O Grande Ah!” com a formação contando com os filhos da primeira geração, a qual baseou também o projeto solo “Trip Lunar”.

Assim como o disco, o show “Trip Lunar” conta com músicos proeminentes da nova cena musical de Belo Horizonte, todos eles com grandes currículos e realizações no cenário musical brasileiro nos últimos 4 anos. Após lançar o disco nacionalmente em Belo Horizonte e internacionalmente no famoso SOB’s em Nova Iorque, Duzão busca novos lugares que queiram embarcar nessa “Trip Lunar”.