A nossa viagem à Ilha do Sul da Nova Zelândia começou com a navegação pelo Estreito de Cook, que separa as duas ilhas que constituem o país. A travessia inicia-se no porto de Wellington. Pegamos o ferry num dia em que o tempo não estava bom, ventos de mais de 40 quilômetros por hora. Enquanto estávamos na baia, durante a primeira hora da travessia, não houve problema. Mas quando chegamos ao mar aberto, o grande navio parecia uma casca de nozes, jogava muito e balançava-se ao sabor das ondas no mar revolto. Vimos várias pessoas passarem mal. Eu fiquei completamente branco e não enjoei por pouco. Foi um drama que só encerrou-se quando daí a duas horas o navio entrou no Queen Charlotte Sound. Esse nome, Sound, é dado ao bonito conjunto de baias, quando o mar entra em meio às montanhas, o que cria regiões de mar calmo e muito belo, pois tem-se o contraste direto da montanha com o mar.

Queen Charlotte Sound

Queen Charlotte Sound

Até aqui descrevi a viagem da Nova Zelândia falando de duas cidades que visitamos: Auckland e Wellington. Apesar de já abordarmos temas não tão urbanos, como a viagem que fizemos à região de fontes termais de Rotorua, haverá um diferença importante no relato que ora inicia-se: esse será principalmente dedicado às belezas naturais dessa parte da NZ, pois aí só ficamos hospedados em cidades pequenas, que são bem organizadas, mas com poucas atrações que valham retratar.

Mark e Loren

Mark e Loren

Começamos nossa viagem por Picton, em que chegamos no final da tarde, exaustos pela turbulenta viagem pelo estreito de Cook. Ficamos apenas uma noite num Bed & Breakfeast bem familiar, situado numa bela casa com vista da baia onde chegam os ferrys. Saímos para jantar e fomos brindados no Pub com um excelente som de dois violões, divinamente tocados por um Mark, neozelandês e Loren, norte americano, que fazem um estilo instrumental country bastante sofisticado, ponteado por solos precisos de um e de outro violonista. Foi uma surpresa ouvir um som dessa qualidade na pequena Picton: os violonistas estão em excursão pela Nova Zelândia e estão fazendo shows em mais de 20 cidades.

PIcton

PIcton

No dia seguinte fomos à locadora buscar o carro que usaríamos em viagem de 12 dias, em companhia de Joan Scott,  por praticamente toda a Ilha do Sul. Partimos para Nelson curtindo a estrada que sai de Picton pelo Queen Charlotte Sound, o mesmo que havíamos passado na tarde anterior sem, no entanto, ter condições de prestar atenção como consequência do mar revolto que nos tirou do sério. Agora tínhamos uma grande vista do mar, enquanto serpenteávamos por entre as curvas. Ao longe vimos o primeiro pico nevado, algo que nos causou emoção mas que se tornaria lugar comum nessa viagem pela ilha do sul.

Dayna Sanerivi e trio

Dayna Sanerivi e trio

Chegamos a Nelson no começo da tarde. Essa é tipicamente uma cidade neozelandesa média, com um centro pequeno, povoado de pubs e de lojas. Depois de almoçarmos em um dos pubs fomos a um parque, que fica a uns dois quilômetros do centro, atrás das atrações do Festival de Música de Nelson, que soubemos estar acontecendo por esses dias. Chegamos ao local, um café com um palco amplo e uma sala razoavelmente grande, quando as pessoas já estavam sentadas a espera do show, de modo que não foi muito fácil encontrar algumas cadeiras, que acomodamos a um canto da sala. Logo começou o show de uma cantora neozelandesa, Dayna Sanerivi, que interpreta clássicos de cantoras do jazz, como Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. A banda tinha ainda um pianista (Dai Minamizawa), um baixista (Paul Gilmour) e um bom saxofonista e clarinetista (Simon Williams), mas fazia muita falta um baterista. Depois do show voltamos a pé para o hotel, curtindo pela primeira vez um céu estrelado.

Parque Marítimo Abel Tasman

Parque Marítimo Abel Tasman

No dia seguinte foi a vez de irmos ao parque marítimo Abel Tasman, que ocupa toda uma península a noroeste da Ilha do Sul. Antes de chegarmos ao parque percorremos 60 quilômetros numa estrada cheia de vinhedos, kiwis e outras árvores frutíferas para produção. Essa é a região de Nelson, também famosa pelos seus vinhos, peras e maçãs. Quando chegamos ao parque, caminhámos por uma trilha entre as matas do parque, sempre com o mar a vista, subindo montanhas quando tínhamos que contornar um garganta mais profunda, ou passando bem rente quando o mar se abria em praias. Nestas matas há muitas samambaias gigantes e, nos morros, muita água corrente. A paisagem lembra um pouco a da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, mas o mar é mais azul.

Descanso para lanche

Descanso para lanche

Foi um grande prazer caminhar duas horas e meia por essas trilhas até chegarmos a uma praia comprida, onde descansamos e curtirmos nosso lanche. Quando voltamos para o hotel em que estávamos hospedados, Regina preparou um suculento jantar regado a um bom vinho neozelandês. Fomos dormir tranquilos, preparados para a viagem que faríamos no dia seguinte, rumo ao sul da ilha pela sua parte leste, a um destino que muito aguardávamos: Kaikoura, onde nos aguardava um passeio para ver baleias.

Focas Neozelandesas

Focas Neozelandesas

O dia amanheceu chuvoso, como é comum nesta época na Nova Zelândia. A primavera, descobrimos, é uma estação que pode ter todas as estações num único dia. A estrada serpenteava por entre as montanhas que tinham os picos cobertos por densas nuvens e assim continuou até quando estávamos a uma hora de Kaikoura, quando enfim alcançamos o mar. Paramos numa entrada onde havia vários carros estacionados. Continuava a chover, muito fino, e percebemos que ali havia um grande colônia de focas neozelandesas, que é um bicho muito interessante. Vive em bandos, em lugares onde há rochedos a beira-mar e não se espanta com a presença dos humanos. Depois de uma hora por essa estrada deslumbrante a beira-mar, atingimos Kaikoura, uma cidadezinha que vive dos passeios para ser ver baleias. É tão certo que um passeio de barco irá resultar na vista de baleias que os organizadores prometem devolver 85% do dinheiro pago se acontecer de não se avistá-las ao fim do passeio.

Kaikoura

Kaikoura

Kaikoura já foi um centro de pesca a baleias e os homens daqui saiam para caça-las em barcos pequenos, o que exigia muita coragem. Ao final, a atividade de caça deu lugar a atividade menos predatória de passeios para curtir a vista desse grandes mamíferos do mar. A cidade se encontra no começo de um dos lados de uma grande península, que adentra o mar por uns 5 quilômetros e que tem uma frente de uns três quilômetros. Ao chegarmos ao extremo dessa frente, que se alarga, subimos a pé por uns 50 metros e percorremos a pé até atingir o outro lado da península. Tem-se uma bonita vista do mar , apesar da chuva fina que caia.

Neve inesperada

Neve inesperada

No dia seguinte amanheceu um sol deslumbrante, sem uma nuvem no céu. Quando saímos do quarto, olhamos para trás e para o nosso assombro havia uma enorme montanha, toda coberta de neve fresca, que havia caído no dia anterior sem que pudéssemos ver, pois estava tudo coberto de nuvens. Logo nos dirigimos ao local de onde sairia o passeio. Na chegada notamos que ventava muito e que o mar estava revolto. Ao adentrar o local, descobrimos que todos os passeios do dia haviam sido cancelados. Ou seja, apesar da certeza com que saem a cata das baleias, os organizadores só o fazem com o mar muito tranquilo, para evitar o que já havíamos testemunhado na travessia do estreito de Cook. Não nos restou alternativa: seguimos mais para o sul.

Christchurch

Christchurch

A próxima parada que fizemos não constava do nosso roteiro, principalmente pelo fato de ter sido arrasada por um terremoto em 2012: Christchurch. Mas como tínhamos tempo, resolvemos dar uma passada para conferir. Ficamos desolados. Todo o centro da cidade foi completamente destruído. Da bela igreja só restou a fachada. A cidade é um canteiro de obras e no lugar do centro foram dispostos containers com bares e pequenos restaurantes, que ficam apinhados na hora do almoço. Não tivemos outra opção que não partir.

Timaru

Timaru

A paisagem vai aos poucos mudando à medida em que entra-se na região de Otago. A ilha do sul tem 6 regiões que diferem bastante em relevo e situação econômica: Nelson, Marlborough, Cantebury, Otago, Westland and Southland. Em Otago, entra-se numa região de planícies, e a viagem fica muito monótona. Por toda a parte o que se vê são imensos pastos de verde intenso e grandes rebanhos de gado leiteiro, ovelhas e cervos. Depois de percorrermos essa região por mais de duas horas chegamos finalmente ao nosso destino de pouso: a cidade de Timaru. Apesar de ter um centro histórico preservado e bonito, Timaru não é uma cidade turística. Vive basicamente do porto, que tem um grande movimento. Saímos para passear as 5 horas da tarde e parecia que estávamos numa cidade fantasma: não havia vivalma nas ruas. Acabamos o passeio num velho prédio que serviu de depósito e foi reconstruído como um Pub, muito bacana, onde finalmente encontramos muita gente. Jantamos deliciosos pratos de carne de cordeiro, peixe e frutos do mar. No dia seguinte partiríamos cedo para Queenstown.

Anaka

Anaka

Na viagem, depois de mais de uma hora ainda na planície, as montanhas foram reaparecendo aos poucos, tornando-se cada vez mais altas, até serem todas coroadas por neve. É curioso como a estrada não se enchia de curvas à medida em que a região se tornava cada vez mais montanhosa. O fato é que seguíamos por um vale, a altitudes cada vez maiores. Finalmente a estrada começou a serpentear mas logo estávamos em Anaka, que fica a 60 quilômetros de Queenstwon e tem também um belo lago, com montanhas nevadas ao fundo. Nesta região são comuns as criações de carneiros e veados. O curioso na criação de veados é que quando nos aproximamos do rebanho, eles fogem em bando, se mantendo juntos. Regina nos explica que essa é uma característica dos cervos, por serem animais facilmente estressáveis. Em Queenstown tive a oportunidade de saborear a carne de veado, que é chamada vernisson, é muito macia e saborosa. Partimos de Anaka por uma estrada secundária, que chega em uma montanha vizinha ao nosso destino, de onde se vê parte do lago e toda a cidade de Queenstown. Havia muita neve no chão, sinal de que havia nevado na noite anterior. Descemos por uma estradinha cheia de curvas muito fechadas e atingimos finalmente o nosso destino nos próximos 3 dias.

Queenstown é uma cidade um pouco estranha, em meio a uma paisagem belíssima. Há hotéis enormes, todos com sacadas, por todos os lados do lago, embora mais acima, nas encostas das montanhas, predominem casas. O lago é de um azul profundo e circundado por montanhas com picos nevados. É uma cidade cheia de turistas durante todo ano. No inverno, eles procuram as estações de esqui. No verão, o lago é usado para esportes aquáticos e pesca. Na primavera e outono, há muitas caminhadas. Na primeira manhã saímos para explorar uma caminhada às montanhas, numa trilha conhecida como Queestown Hill Walkway. Subimos mais de 500 metros, num grande esforço. Depois de duas horas fomos recompensados por uma vista lindíssima, regada a um bom vinho neozelandês que havíamos carregado morro acima.

Depois de Queenstown partimos para Te Anau, que é a porta de entrada do Milford Sound, a entrada de mar mais bela que existe na Nova Zelândia, pois as montanhas são altíssimas e formam um paisagem de fiordes. Te Anau também fica a beira de um lago, rodeada por montanhas. A cidade é pequena e serve de base aos visitantes dessa região. No dia seguinte saímos cedo, pois iríamos fazer um passeio de barco pelo Milford Sound. Mas também não tivemos sorte. O tempo em Te Anau era bom mas para o Milford Sound anunciavam uma tempestade, de modo que já no hotel o dono comentou conosco, enquanto nos preparava deliciosos omeletes, que havia grande possibilidade de a estrada estar fechada a partir do ponto que fica a 30 quilômetros de Milford Sound. Quando saímos da cidade já havia uma mulher da firma responsável pela estrada que nos parou e disse que ela havia sido fechada. Perguntamos sobre as condições de ir até o ponto onde foi fechada e ela nos respondeu que poderíamos ir, mas com cuidado, pois uma tempestade estava anunciada e ventos fortes costumavam derrubar galhos de árvore na estrada.

Arco-íris em Fiordlands

Arco-íris em Fiordlands

Valeu a pena termos ido. Estávamos nos Fiordlands, uma região enorme ao sudoeste da ilha do sul que é completamente desabitada. Tem-se unicamente a estrada que estávamos percorrendo e picadas a serem percorridas a pé. Do lado oeste, tem-se muitos sounds, que permitem a entrada de barco, mas para chegar a lugar nenhum. A mata é virgem e a estrada vai percorrendo um vale com montanhas cada vez mais altas. Começou a chover mas ainda havia sol e notamos que se formavam arco-íris inteiros, às vezes 3 concêntricos, num belo espetáculo que nem sempre conseguimos capturar com a máquina fotográfica. Na volta havia um parte da estrada que estava em meia pista, com máquinas trabalhando, pois caíra uma grande árvore, fechando uma pista. Atravessamos pelo menos uns três quilômetros com muitos galhos espalhados pela pista. Ainda bem que não aconteceu quando passávamos. Ficamos com uma bela impressão da região, embora não tenhamos feito o passeio ao Milford Sound.

Geleira Franz Josef

Geleira Franz Josef

No dia seguinte começamos a nossa volta que, ao contrário da ida, seria feita em apenas dois dias nos quais cobriríamos 1100 quilômetros. Tivemos que descer a Queenstown  novamente, pois apesar de estarmos mais ao norte em Te Anau, não há saída por ali. Optamos por voltar pelo oeste da ilha, justamente no caminho que não tínhamos feito, e prevíamos uma parada em Franz Josef Glacier, região vizinha ao monte Cook, o mais alto da Nova Zelândia, onde há uma série de geleiras. A volta no primeiro dia foi sob chuva e dessa vez com pancadas fortes. Um pneu furado nos atrasou um hora, no único incidente que tivemos por toda ilha do sul.  A volta pelo oeste é marcada por regiões vazias, cobertas de florestas densas, cercadas por altos picos, que ficaram invisíveis devido a chuva, e inúmeras cachoeiras, que saltavam com toda a força, algumas muito próximo à estrada. Chegamos em Franz Josef ainda sob chuvas, mas ao sairmos do Pub onde fomos jantar a chuva havia cessado e as nuvens começavam a dissipar, mostrando os picos nevados. No outro dia, acordamos cedo e fomos ver a geleira Franz Josef. Uma grande massa de gelo que se precipita por entre duas montanhas. O céu estava azul e a paisagem linda. A seguir, partimos para a etapa final de nossa viagem pela ilha do sul rumo a Picton, onde entregaríamos o carro e tomaríamos o ferry de volta a Wellington. Foram 550 quilômetros quase o tempo todo sob sol e céu azul. Dessa vez, a viagem ocorreu num mar tranquilo, para deixar uma boa lembrança. No outro dia cedo embarcaríamos para Hong Kong dando adeus a bela Nova Zelândia, que nos marcou com muitas boas lembranças.