Há uma antiga disputa entre Sydney e Melbourne para saber qual é a melhor cidade da Austrália. Os amantes da natureza com certeza elegerão Sydney com a sua maravilhosa baia, lindas praias que podem ser alcançadas por meio de uma curta viagem de ferry boat, e um conjunto de parques naturais circundando toda a cidade. Os amantes da cultura e da vida urbana dirão que Melbourne ultrapassa todas as expectativas, com a música pulsando em cada esquina, com muitas atrações em todos os teatros, e com uma agitação por todo o centro, pequeno o suficiente para ser percorrido à pé.

Sala de concertos

Sala de concertos

Foi nesse contexto, já conhecendo Sydney, que chegamos a Melbourne, cheios de expectativa. Logo no segundo dia fomos a um concerto da orquestra sinfônica de Sydney, sob a regência Benjamin Northey, um jovem australiano com muita energia, e com presença da solista chinesa, Xuefei Yang, uma violonista que tocou duas peças: uma contemporânea de seu conterrâneo, Tan Dun, e o Concerto de Aranjuez, do espanhol Joaquín Rodrigo. A sala de concertos de Melbourne é mais tradicional que a de Sydney, mas nem por isso a acústica deixa a desejar. O concerto de Aranjuez é uma das peças mais conhecidas para violão e orquestra, e foi executado com mestria pela violonista chinesa. É interessante que o recital começou com uma peça bastante conhecida de Debussy, L’après-midi d’un faune, e terminou com a não tão conhecida Ibéria, que faz parte dos seus últimos trabalhos orquestrais, chamados Images pour orchestre. Na Ibéria o músico francês lança mão de motivos espanhóis para compor uma bela peça. É interessante que Debussy visitou a Espanha uma única vez e não ficou mais que um dia, de modo que todo o desenho espanhol é fruto da pura imaginação do compositor francês.

Tanto aqui como que fomos em Sydney, tivemos uma estrutura no concerto como um todo que conduz o ouvinte por entre as obras, levando-o a curtir certas emoções em crescendo, mas sempre com o mesmo padrão musical. Acho muito mais interessante uma estrutura desse tipo, que procura estabelecer coerência entre as várias peças executadas e que não produz quebras bruscas na audição, do que a forma como a Orquestra Filarmônica de Minas Gerias tem nos apresentado normalmente no Palácio das Artes. Nesta última, não há uma sequência lógica no concerto e uma peça de Mozart é seguida, por exemplo, por uma de Mahler. Tudo bem que todas as duas são excelentes, mas quando colocadas lado a lado num mesmo concerto não formam um todo coerente, prejudicando de certa forma a audição da peça de Mahler e desmanchando, por assim dizer, a impressão deixada pela peça de Mozart.

Bennetts Lane

Bennetts Lane

No noite seguinte foi a vez de ouvirmos Rita Satch, uma cantora de blue e jazz local, acompanhada por um trio formado por piano, baixo e bateria, num típico club de jazz da cidade, o Bennetts Lane. Excelente cantora, com um pianista primoroso, Gideon Preiss, e os outros dois músicos muito bons. Executou muitas de suas próprias composições e algumas músicas de compositores contemporâneos australianos. Deixou em nós uma viva impressão de uma voz macia e gostosa, num clima super aconchegante.

Na terceira noite fui conhecer o violonista Doug de Vries, que também é professor na Universidade de Melbourne e divulgador da música brasileira. Cheguei a um bar que fica pertinho do centro, na região chamada Fritzroy, e eles já estavam tocando. Uma formação simples – violão, violino e pandeiro – mas bem inusitada para execução do chorinho, que era o principal tema da apresentação. Os três músicos ficam num canto do bar, tocando bem a vontade, mas executam uma música de alta qualidade, com o violonista e o violinista se alternando em solos precisos, as vezes executados simultaneamente. Eu havia contatado Doug antes desse show, para lhe dar o meu CD Trip Lunar. Logo que cheguei, cumprimentei-lhe e ele disse a um rapaz que estava próximo que viesse conversar comigo. Para minha surpresa, era um australiano, de nome Corey, falando um bom português e também violonista de choro, só que especialista em violão de 7 cordas. Esteve no Rio de Janeiro este ano, em janeiro e fevereiro, e adora o país. Ao final do primeiro set, Doug de Vries se juntou a nós e, agora em inglês, conversamos muito sobre música, particularmente a brasileira, principalmente  sobre os vários violonistas que sempre colocaram o Brasil em sintonia com a música popular mundial, produzindo uma música original e de qualidade. Doug conhece Yamandu Costa, com que já teve oportunidade de tocar e o qual expressa bem essa qualidade do violonista brasileiro. Quando os músicos reiniciaram, executaram uma música de Milton Nascimento, bem para abrir o clima para uma canja minha. Muito pouco a vontade, ante a qualidade do violão de Doug, executei duas das minhas músicas, Trip Lunar e Claro Feitiço, e ainda contei com um improviso do violinista.

Centro de Melbourne

Centro de Melbourne

Pois é, dá para sentir por esse relato o quanto Melbourne respira música e arte. A cidade tem o centro na forma de um retângulo, formado pela La Trobe Street, Spring Street, Flinders Street e a Harbour Esplanade, por entre as quais circula o bonde City Circle, que é o mais antigo e de graça. A medida que os pontos vão se sucedendo, uma voz masculina vai anunciando as inúmeras atrações em cada ponto. Dentro desse retângulo circulam, pelas várias avenidas, os mais variados bondes, alguns modernos, outros nem tanto. É a quarta maior rede de bondes circulando em uma única cidade, com 244 quilômetros de extensão. Desse retângulo eles partem para pontos distantes no subúrbio de Melbourne. Como toda cidade australiana, o subúrbio é constituído por casas com grandes jardins. O centro de Melbourne mistura prédios antigos com outros ultra modernos. Belo Horizonte já teve um razoável rede de bondes, que cruzavam as principais ruas, com a Platina, a Niquelina, a Padre Eustáquio, etc. Por que foram tirados? Por que não retomamos com bondes modernos, como uma opção de transporte público?

Victoria Market

Victoria Market

Ficamos num apart hotel a um situado a quarteirão de um ponto do bonde City Circle e a dois quarteirões do Victoria Market, que é uma mercado enorme. O setor de frutas e verduras tem inúmeros feirantes que montam as bancas todos os dias, com exceção de segunda e quarta. Já a parte de carnes, peixes, queijos, azeitonas, etc, lembra um pouco o Mercado Central de Belo Horizonte, mas com uma variedade de produtos muito maior. Compramos peixes, camarões, verduras e frutas para prepararmos almoços deliciosos.

Federation Square

Federation Square

No dia em que chegamos percorremos o trajeto do bonde City Circle. Descemos na Federation Square, de certa forma uma praça que atrai pelos seus vários museus, todos em desenho ultra moderno, e por estar perto do rio Yarra, que tem todo o charme de inúmeros restaurantes em suas margens. Na Federation Square fomos ao Ian Potter Centre, que tem uma boa coleção da arte aborígene no seu primeiro andar. Essa arte é quase sempre baseada em sonhos e cada sonho conta uma história. Há alguns padrões que sempre se repetem, como o uso de pontos de círculos feitos a partir desses pontos. O segundo e terceiro andar são dedicados a artistas australianos dos séculos XIX e XX.

Curiosamente, metade de um andar faz parte de uma coleção privada que foi doada ao museu pelo seu dono, Joseph Brown, em 2004. Brown nasceu na Polônia em 1918 e migrou para a Austrália em 1933, quando tinha apenas 15 anos, tendo se fixado em Melbourne. Inicialmente dedicou-se a pintura, mas após retornar da II Guerra Mundial foi se envolvendo cada vez mais com a indústria de moda, onde fez fortuna e se tornou um colecionador de arte e patrocinador de artistas australianos. Sua coleção pessoal, cuja maioria das grandes obras está exposta, revela um pouco de tudo o que aconteceu em termos de pintura na Austrália durante o século XX.

Rio Yarra

Rio Yarra

Quase todo rio enfeita enormemente a cidade que banha, principalmente nos países estrangeiros. No Brasil isso nem sempre acontece, pois os rios foram transformados em esgotos a céu aberto e provocam inundações nos tempos de chuva. Com Melbourne não é diferente. O Rio Yarra banha o lado sul da cidade, e do outro lado de sua margem ficam os modernos prédios do centro financeiro. Um desses é o Eureka, um edifício ultra moderno de 88 andares com uma vista magnífica de toda Melbourne.

Ponte Sandridge

Ponte Sandridge

Ao longo de suas margens há um belo passeio, com bares e restaurantes em meio a bonitos edifícios, como o do Centro de Convenções e Exibições de Melbourne, um enorme prédio para abrigar grandes convenções e feiras; e modernas pontes exclusivas para pedestres, dentre as quais destacamos a Ponte Sandridge, construída originalmente em 1853 para abrigar a estrada de ferro e totalmente reformulada em 2006, tornando-se exclusiva de pedestres e ciclistas e exibindo esculturas artísticas em toda sua extensão. Nesta ponte há um registro de todos os migrantes que chegaram a Melbourne, de todas as partes do mundo, inclusive do Brasil, com detalhes sobre a época em que ocorreram as migrações, de onde vieram os migrantes, o motivo da migração e o número de migrantes. Cada país é representado num quadro de vidro, e o Brasil curiosamente exibe o período entre 1970 e 1980 como um dos que contribuíram com migrantes por causa da perseguição política. Vieram do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia.

Vista do Eureka

Vista do Eureka

Em uma das nossas tardes em Melbourne fomos visitar Peter Fensham, famoso professor da Universidade de Monash, que fica no subúrbio de Melbourne. Conheci Peter quando o convidei para dar conferência na Reunião Anual da SBQ, lá pelo começo dos anos 2000, quando eu era diretor de Ensino da Sociedade Brasileira de Química. Ele passou 15 dias comigo no Brasil e desde então nos tornamos amigos, nos encontrando nas conferências de Science Education pela Europa e Estados Unidos.

Eu, Peter e Christina

Eu, Peter e Christina

Pegamos o bonde 48 no ponto 4, Queens St. & Collins St., para North Balwyn e descemos depois 40 minutos no ponto 32, Kew Junction, depois de deixar o centro da cidade para trás, passarmos por dois bairros inteiros e chegarmos a um terceiro, com grandes casas vitorianas. No caminho o trem foi invadido por colegiais, ora do sexo masculino, ora do sexo feminino, pois eram três e meia da tarde, horário de fim de escola. Curiosamente, várias escolas privadas mantêm ainda escolas exclusivamente para rapazes ou moças, como acontecia no Brasil até 1960. Fensham nos explicou que nesses bairros habitam pessoas de classe média alta, que fazem questão de pagar caro a uma escola privada porque seus filhos, neste caso, vão conviver unicamente com a elite que assumirá o comando de empresas e do estado. Já os chineses ricos, que não fazem questão disso mas da qualidade acadêmica das escolas, procuram bairros em que as escolas públicas são boas, elevando muito o preço das casas.

Jardim Botânico

Jardim Botânico

Peter, que já está com 86 anos, mora unicamente com a mulher, Christina, que há muito eu queria conhecer, pois ele sempre falava vivamente dela quando encontrávamos. Foi um grande prazer ir a casa deles, dar umas voltas por um parque da região e depois jantar a deliciosa comida preparada pelo Peter, revivendo histórias e personagens da Science Education.

Fomos também ao Jardim Botânico de Melbourne, que fica numa bairro mais próxima da cidade, em meio a um enorme parque denominado Kings Domain. É um Jardim Botânico lindíssimo, com uma variedade de plantas impressionante. Tivemos oportunidade de sentir a fragrância de vários tipos de eucaliptos e algumas flores que não sabemos mais o nome. Os eucaliptos são nativos da Austrália e sua variedade é enorme. Alguns tem um aroma das folhas particularmente agradável, lembrando frutos cítricos.

Falésias, ilhas

Falésias, ilhas

Por último, alugamos um carro e viajamos para a Great Ocean Road, cuja principal atração está a 230 Km de Melbourne. Uns 80 km depois de Melbourne pega-se a estrada que vai serpenteando pelos litoral, proporcionando belas paisagens. Há muitas montanhas, com matas virgens, ladeando um mar de um azul profundo e ondas bravias. Vez por outro as montanhas dão lugares a praias bem formadas, com ondas regulares, ideais para a prática de surf. Vimos surfistas em algumas delas. Depois de uns 100 quilômetros por essa estrada maravilhosa, é hora de abandonarmos o mar e subir por uma estrada ainda mais bonita, que fica no meio de uma densa floresta.

Falésias, pontes

Falésias, pontes

Ao final dessa estrada, chega-se novamente no mar, particularmente bravio, com falésias muito altas de arenito, que vão sendo esculpidas pela água do mar, ventos e chuva, formando inicialmente ilhas. Quando estas falésias se separam do continente, vão sendo escavadas pelas ondas e formam pontes; depois de algum tempo, essas pontes cedem, formando curiosas montanhas de areia dentro do mar. Essa região, onde há uma grande extensão dessas formações, é conhecida como Doze Apóstolos. É algo totalmente inusitado, as rochas de arenito vão sendo comidas a uma proporção de 2 centímetros por ano.

Fizemos a viagem até os Doze Apóstolos na agradável companhia de André, filho do meu primo Frederico, que fez essa foto de nós dois. André está a três meses em Melbourne, se adaptando e aprendendo inglês para fazer um mestrado em Arqueologia. André é formado em História mas trabalhou no Brasil numa empresa de licenciamento ambiental. Agora o país assinou uma carta da UNESCO sobre licenciamento ambiental que prevê que deverão ser levantados também dados arqueológicos nos projetos de licenciamento, o que abre um enorme campo para a arqueologia no país.

Doze Apóstolos

Doze Apóstolos

Para terminar, cabe comentar que o centro de Melbourne transborda estudantes, principalmente asiáticos, o que mostra o vigor da educação superior na Austrália, que já se especializou para vender um serviço de auto nível para a o mundo. Isto é algo que devíamos pensar em fazer, pelo menos para os nossos vizinhos de América da Sul e para os parceiros da África, em lugar de dar bolsas aos estudantes de graduação para fazer turismo no mundo, o que aqui eu pude comprovar através do relato de alguns brasileiros e australianos.